Operador pediu suspensão de cerca de 1.000 MW entre 10h e 14h; 12 distribuidoras reduziram 23,5%.

ONS corta geração de pequenas usinas por excedente

Com demanda baixa e alta renovável, ONS acionou plano de gestão de excedentes e solicitou suspensão temporária de cerca de 1.000 MW.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) informou nesta terça-feira a ativação, pela primeira vez, do plano de gestão de excedentes do sistema elétrico. Segundo a nota técnica do operador, foi solicitada a suspensão temporária de geração próxima a 1.000 megawatts (MW) entre 10h e 14h em usinas conectadas diretamente a distribuidoras.

A medida atingiu, sobretudo, pequenas centrais de geração distribuída que têm contratos e mecanismos operacionais distintos dos grandes geradores do mercado atacadista. O desligamento teve como objetivo reduzir a pressão descendente sobre o sistema elétrico — um cenário que, em casos extremos, poderia comprometer o equilíbrio entre oferta e demanda e gerar riscos operativos.

Combinação de fatores levou à ação do ONS

De acordo com o documento do ONS, a decisão foi motivada por uma combinação de oferta renovável elevada e queda de demanda. Dias mais quentes e vento persistente, somados ao aumento da geração solar no período da manhã e início da tarde, elevaram o risco de excedente. Por outro lado, a carga registrou redução, influenciada por menor consumo industrial e fatores sazonais.

Segundo análise da redação do Noticioso360, que cruzou informações da Agência Brasil e do G1, o cenário foi suficiente para acionar controles que, até então, não haviam sido utilizados nessa escala.

Alcance operacional: 12 distribuidoras e 23,5%

Fontes consultadas pelo operador e por veículos indicam que 12 distribuidoras receberam orientações para reduzir a injeção de energia de usinas associadas aos seus pontos de conexão. No agregado, as ordens implicaram uma queda de produção de cerca de 23,5% das unidades abrangidas pelas instruções — percentual que se refere ao subconjunto de plantas afetadas e não ao total da geração distribuída no país.

O ONS esclareceu que os agentes afetados serão remunerados segundo as regras vigentes para gerenciamento de restrições e eventos extraordinários, em conformidade com contratos e procedimentos do mercado. Fontes setoriais consultadas anteriormente por veículos de imprensa apontam que, embora a suspensão reduza receita de pequenas centrais, mecanismos de compensação costumam atenuar impactos econômicos.

Operação temporária e condicionada

A ação foi operacional e limitada ao intervalo especificado: as suspensões foram programadas entre 10h e 14h e condicionadas à evolução do consumo e da geração. O ONS enfatizou que medidas de curto prazo são preferíveis a ajustes que possam colocar em risco a estabilidade da rede, principalmente quando a geração renovável está concentrada em horários específicos do dia.

“A prioridade é manter a segurança operativa do sistema. Quando a geração excede a demanda em pontos de distribuição, são necessários controles para evitar oscilações que prejudiquem a confiabilidade”, afirmou trecho da nota técnica do operador.

Impactos para pequenos geradores e distribuidoras

Representantes de distribuidoras e associações de pequenos geradores ouvidos em reportagens anteriores defendem regras mais claras para compensação e previsibilidade nas comunicações operacionais. A coordenação entre ONS, distribuidoras e agentes produtores é apontada como essencial para reduzir impactos financeiros e preservar a segurança energética.

Operadores e associações ressaltam que, mesmo com remuneração definida, a incerteza sobre a frequência e a duração de intervenções pode afetar a atratividade de novos projetos de geração distribuída, sobretudo de pequenos investidores domésticos e cooperativas.

Desafios regulatórios e técnicos

Especialistas do setor têm destacado que a recorrência de excedentes tende a aumentar à medida que a participação de fontes intermitentes — solar e eólica — cresce no mix elétrico brasileiro. Isso exige aprimoramento de instrumentos de gestão, maior flexibilidade da carga e investimentos em armazenamento, como baterias e usinas hidrelétricas reversíveis.

Além disso, há discussão sobre a necessidade de mecanismos de sinalização mais eficientes para que distribuidoras e geradores programem geração e consumo. Medidas de demanda flexível e tarifa que reflita a variabilidade podem reduzir a frequência de intervenções emergenciais.

Transparência e comunicação

Em nota, o ONS informou que manteve contato com as distribuidoras afetadas e que os desligamentos foram comunicados de acordo com os procedimentos operacionais vigentes. A redação do Noticioso360 manteve contato com o operador para solicitar os documentos técnicos relacionados à ação e também procurou representantes de distribuidoras para confirmar o alcance das ordens.

As distribuidoras, por sua vez, relataram que seguiram orientações para preservar a estabilidade da rede e que atuaram dentro do escopo estabelecido pelo operador.

O que muda na prática

No curto prazo, a ocorrência demonstra que o sistema elétrico brasileiro já dispõe de ferramentas para gerir excedentes. No entanto, especialistas e agentes do setor afirmam que ajustes regulatórios e operacionais podem ser necessários para acomodar a crescente penetração das renováveis sem impor custos desproporcionais a pequenos produtores.

Investimentos em armazenamento, maior previsibilidade nas comunicações e instrumentos de mercado que incentivem flexibilidade de carga aparecem como prioridades para evitar que intervenções semelhantes se tornem rotina.

Fontes

Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.

Analistas apontam que o movimento pode redefinir o cenário regulatório e os incentivos a armazenamento nos próximos anos.

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