Ministro atribui inflação ao petróleo e diz ter zerado déficit; checagem encontra lacunas
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou em entrevistas recentes que a alta da inflação decorre majoritariamente do aumento do preço do petróleo e declarou que o governo federal “zerou” o déficit. As declarações repercutiram na mídia e abriram questionamentos sobre a precisão dos números apresentados.
Segundo análise da redação do Noticioso360, com base em dados públicos e cruzamento de informações do Poder360, do IBGE e do Tesouro Nacional, as afirmações do ministro contêm imprecisões e omissões relevantes que precisam ser esclarecidas com documentação oficial.
O que disse o ministro e por que investigamos
Em entrevistas concedidas entre julho e agosto de 2026, Durigan afirmou que choques nos preços do petróleo foram o principal motor da inflação recente e declarou que medidas de gestão permitiram “zerar” o déficit público no período citado. Afirmações sobre dados macroeconômicos exigem especificidade: valores, períodos e instrumentos utilizados para o cálculo.
Nos comunicados públicos e nas planilhas de execução orçamentária disponíveis até 30 de junho de 2026, não há demonstrativos consolidados apresentados pelo Ministério da Fazenda que comprovem, de forma inequívoca, a afirmação de déficit integralmente zerado no exercício referido.
Inflação: o papel do petróleo é real, mas não exclusivo
Choques nos preços internacionais de commodities — incluindo o petróleo — afetam componentes do índice de preços ao consumidor, principalmente combustíveis e energia. Dados do IBGE mostram que os determinantes da inflação no Brasil são multifatoriais, com contribuição relevante de alimentos, serviços e itens regulados.
Em meses específicos, a alta nos combustíveis pressionou o IPCA. Contudo, a análise mensal do índice revela variações por componente: nem sempre o item “combustíveis” foi o fator dominante em todos os períodos citados pelo ministro. A leitura isolada de um único determinante tende a simplificar um fenômeno que envolve oferta, demanda, expectativa inflacionária e políticas regulatórias.
Déficit: conceitos e necessidade de comprovação
Quando um gestor público afirma que o déficit foi “zerado”, é necessário distinguir entre resultado primário, resultado nominal e operações financeiras que afetam o espaço fiscal. O Tesouro Nacional publica relatórios mensais e trimestrais com essas informações e é nesses documentos que se deve buscar a confirmação.
É tecnicamente possível apresentar resultados primários melhores por efeito de receitas extraordinárias, postergação de despesas ou operações de crédito. No entanto, tais ajustes precisam estar claramente discriminados: quais rubricas foram usadas, que instrumentos contábeis foram aplicados e se alguma despesa foi deslocada para fora do orçamento corrente.
Ausência de documentação pública
A nossa checagem não localizou — até a data desta apuração — um demonstrativo público consolidado que valide a afirmação do “déficit zerado” como fato incontestável. Relatórios do Tesouro e da Secretaria do Orçamento devem conter planilhas e notas explicativas quando há uso de dispositivos contábeis excepcionais.
Sem esses documentos, a declaração do ministro fica fragilizada. A expressão “gastos fora da conta” também exige precisão técnica: existem mecanismos legais, como fundos, operações de crédito e postergações, que podem alterar a visibilidade imediata do déficit sem anular compromissos financeiros.
Comparação com cobertura e opiniões de especialistas
O levantamento do Noticioso360 confrontou as declarações com reportagens do Poder360 e com relatórios do IBGE e do Tesouro. Jornalistas especializados e economistas consultados em outras coberturas costumam diferenciar resultado primário de resultado nominal e alertam para o uso de mecanismos temporais que mascaram déficits no curto prazo.
Fontes do mercado e especialistas em contas públicas ouvidos em reportagens anteriores apontam que é comum governos buscarem instrumentos contábeis e receitas extraordinárias para melhorar indicadores em períodos de maior exposição política. Isso não significa, porém, que o endividamento ou compromissos futuros deixem de existir.
O que faltou na declaração do governo
Para que a afirmação fosse considerada robusta, o Ministério da Fazenda precisaria apresentar: (i) o relatório de execução orçamentária periódica com os valores consolidados; (ii) a discriminação das rubricas consideradas “fora da conta”; (iii) a natureza das receitas extraordinárias ou operações contábeis que teriam compensado déficits; e (iv) o período exato ao qual se refere a afirmação.
A ausência desses documentos impede verificação independente e reduz a transparência — principal requisito para avaliações sobre políticas fiscais e seus efeitos na economia real.
Recomendações de transparência e próximos passos
A redação do Noticioso360 recomenda solicitar formalmente ao Ministério da Fazenda: uma planilha de cálculo que fundamente a fala do ministro; notas explicativas sobre eventuais operações fora do orçamento; e a identificação das datas em que o petróleo teria sido o principal motor da inflação alegada.
Além disso, sugerimos que analistas e jornalistas exijam a publicação imediata desses documentos nos portais do Tesouro e da Secretaria do Orçamento, permitindo que pesquisadores e a sociedade verifiquem independentemente as contas públicas.
Conclusão provisória
Há fundamento em chamar atenção para a influência do petróleo sobre preços domésticos, mas a afirmação simplista de que a inflação se deve exclusivamente a esse fator não se sustenta diante dos dados públicos. Da mesma forma, a declaração de déficit “zerado” carece de comprovação documental acessível.
Até que o Ministério apresente relatórios consolidados com números e notas explicativas, a avaliação do Noticioso360 é de que as declarações contêm imprecisões e omissões relevantes.
Projeção
Se o governo não divulgar rapidamente os documentos solicitados, a controvérsia tende a alimentar debates sobre transparência fiscal e pode aumentar a desconfiança do mercado e de analistas, com efeitos potenciais na expectativa de inflação e no custo de financiamento do Tesouro nos próximos meses.
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Analistas apontam que o movimento pode redefinir o cenário político nos próximos meses.
Fontes
Veja mais
- Paralisação de 24 horas suspendeu parte do atendimento em Sorocaba e Itapetininga; data referida como “quinta-feira (20)”.
- IBC-Br caiu 0,6% em junho; desaceleração no 2º tri reforça expectativa de cortes graduais da Selic.
- Varejista listou R$17,3 bilhões em dívidas e cerca de 28 mil credores no pedido.



