Banco Digimais movimenta carteiras inadimplentes e acende alerta
Documentos obtidos por veículos de imprensa apontam para operações em que o Banco Digimais transferiu carteiras com alta inadimplência para fundos de investimento nos quais a própria instituição aparece como cotista. A manobra, segundo as peças analisadas, teria reduzido provisões por perdas e melhorado indicadores financeiros do banco.
Segundo análise da redação do Noticioso360, com base em cruzamento de dados do Estadão e da Folha de S.Paulo, as movimentações aconteceram ao longo dos últimos 12 a 18 meses, em momentos de pressão sobre o balanço do Digimais.
Como teria ocorrido a operação
De acordo com os documentos, o banco identificou carteiras deterioradas — empréstimos com risco elevado de calote — e as apresentou a veículos de investimento que assumiram esses ativos. Em alguns casos, os fundos que receberam as carteiras teriam participação do próprio Digimais.
Fontes internas ouvidas pelas reportagens sugerem que, ao deslocar esses ativos para fundos nos quais havia vínculo, a instituição pôde registrar menor provisão consolidada, reduzindo o impacto aparente das perdas no balanço global.
A prática é comum, mas depende de independência
Especialistas financeiros consultados pela equipe afirmam que a venda de carteiras a fundos é uma prática legítima de gestão de risco quando feita com transparência, preço de mercado e independência entre as partes.
“Transferir risco de crédito para um terceiro independente é uma ferramenta usual para recompor capital e limpar o balanço”, diz um analista que preferiu não se identificar. “O problema é quando há conflito de interesse e falta de clareza sobre preços e avaliações.”
Riscos contábeis e de governança
O principal ponto de atenção identificado pela apuração é o potencial conflito de interesse. Se o comprador é um fundo com participação do mesmo grupo que controla o banco, aumenta o risco de avaliação tendenciosa dos ativos e de reconhecimento inadequado de resultados.
Documentos e relatórios citados nas publicações indicam lacunas na divulgação: critérios de avaliação pouco detalhados, ausência de laudos públicos sobre o valuation das carteiras e informações insuficientes sobre quem definiu os preços de transferência.
Do ponto de vista regulatório, o Banco Central exige que operações entre instituições financeiras e fundos sejam registradas e avaliadas conforme normas contábeis e prudenciais. Auditorias independentes são recomendadas para verificar se houve subavaliação de provisões ou transferência de risco sem a adequada contabilização consolidada.
Sem prova de ilegalidade, mas com indícios que justificam investigação
A apuração do Noticioso360 não encontrou registros públicos de autuações ou decisões judiciais que comprovem ilegalidade definitiva nas operações. Ainda assim, as evidências reunidas configuram sinais de alerta que, segundo especialistas, justificam investigação formal por auditores e órgãos reguladores.
“Não há necessariamente fraude quando há relação entre vendedor e comprador, mas é imprescindível transparência total e documentação que comprove preço justo”, afirma uma professora de contabilidade de uma universidade federal consultada pela redação.
Posicionamento do banco e da Igreja
O Banco Digimais, ligado ao bispo Edir Macedo e a investidores vinculados à Igreja Universal, não respondeu às tentativas de contato informadas nas reportagens base. Também não houve manifestação oficial da Igreja Universal sobre as operações mencionadas.
Fontes consultadas pelo Noticioso360 disseram que a ausência de respostas limita a confirmação das justificativas formais e da metodologia usada nas transações.
Contexto de mercado e cronologia
Interlocutores do mercado destacaram que, no período citado, o banco enfrentava dificuldades e buscava alternativas para o saneamento do balanço. Informações públicas sobre negociações para venda do banco corroboram a existência de incerteza estratégica na administração.
Relatos indicam que as movimentações ocorreram em etapas, com buscas por interessados e reestruturações de ativos durante os últimos 12 a 18 meses. Os termos das tratativas e a identidade de potenciais compradores não foram confirmados de forma independente.
O que as autoridades podem fazer
Especialistas ouvidos recomendam que o Banco Central e demais órgãos fiscalizadores realizem auditorias independentes sobre as transações, checando se houve adequação das provisões e se as operações respeitaram normas prudenciais.
Entre as ações sugeridas estão a solicitação de contratos de cessão, demonstrações completas dos fundos envolvidos e laudos de avaliação que justifiquem o preço atribuído às carteiras.
Implicações para investidores e clientes
Para investidores e analistas de mercado, a operação pode ter efeito temporário de melhora em indicadores, mas gera incerteza sobre a qualidade dos ativos remanescentes e a real exposição a perdas.
Clientes e correntistas podem ser afetados indiretamente caso a instituição precise de novas medidas de capitalização ou reestruturações que influenciem a oferta de crédito e serviços.
Próximos passos da apuração
A redação seguirá buscando documentos adicionais, incluindo contratos de cessão e laudos de avaliação, e tentará ouvir administradores dos fundos citados. Também foram encaminhadas consultas ao Banco Central sobre avaliações prudenciais recentes relacionadas à instituição.
Qualquer nova manifestação oficial do banco ou da Igreja Universal será incluída na matéria assim que recebida.
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Fontes
Analistas apontam que o movimento pode redefinir o cenário político nos próximos meses.
Veja mais
- Petrobras registrou FUT de 103% por ajustes operacionais e logísticos; efeito é temporário, dizem analistas.
- Alta internacional do petróleo pressiona preços no Brasil e reduz espaço para cortes abruptos da Selic.
- Mensagens atribuídas a Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro elevaram prêmio de risco e pressionaram juros e expectativas fiscais.



