O banco Citi afirmou em relatório que a vantagem do Brasil como destino para operações de carry trade vem se reduzindo, tornando a tese de investimento no país “mais complexa” para o segundo semestre. A análise aponta uma combinação de fatores externos e internos que pode reduzir o fluxo de capitais atraídos apenas pelo diferencial de juros.
Segundo o relatório, resultados corporativos sólidos nos Estados Unidos e um apetite renovado por investimentos ligados a tecnologia e inteligência artificial tendem a deslocar parte do capital que, até então, beneficiava países com taxas reais elevadas, como o Brasil.
De acordo com análise da redação do Noticioso360, que cruzou o relatório do Citi com reportagens de agências e comentários de estrategistas, a avaliação do banco combina dados macro internacionais e um olhar setorial sobre o perfil das empresas brasileiras. Esse ponto é central para entender por que o efeito carry pode perder força.
Por que o carry trade mudou
Historicamente, estratégias de carry trade buscam explorar diferenças entre taxas de juros domésticas e estrangeiras. No caso do Brasil, o prêmio oferecido por juros reais elevados atraiu fluxo de portfólio quando o apetite ao risco era maior.
No entanto, o Citi destaca que a dinâmica global mudou. O fortalecimento da economia dos EUA — que tem gerado ganhos relevantes para empresas de tecnologia — pode reduzir a busca por juros locais em favor de apostas em crescimento e inovação.
Foco em tecnologia e IA
O relatório chama atenção para a concentração das oportunidades em setores ligados à tecnologia e à inteligência artificial. Assim, países e empresas que oferecem exposição direta a essas megatendências captam mais capital.
O Brasil, na avaliação do banco e de analistas ouvidos pela imprensa, tem baixa exposição corporativa a essas megatendências. Isso não afasta investimentos no país, mas altera o perfil das aplicações: menos posições puras de carry e mais seleção ativa por qualidade, governança e potencial de crescimento setorial.
O papel da inflação e dos juros
Outro vetor citado pelo Citi é o comportamento das expectativas de inflação no Brasil. Quando expectativas se desancoram — seja por sinais de persistência inflacionária, seja por dúvidas sobre a condução da política monetária — o atrativo do carry diminui.
Em cenários anteriores, um gap elevado entre juros domésticos e externos oferecia um prêmio que compensava riscos cambiais e de volatilidade. Se esse diferencial se reduz ou as expectativas tornam-se menos previsíveis, estratégias que dependem exclusivamente do spread ficam mais vulneráveis.
Como isso afeta a rentabilidade
Para gestores, a combinação de menor diferencial de juros e maior aversão ao risco tende a elevar a importância do hedge cambial e da seleção de ativos. Estratégias que antes se apoiavam em juros nominais podem precisar rever duration e exposição.
Impacto corporativo e perfil de investimento
O Citi chama atenção para o fato de que, ao faltar exposição às megatendências tecnológicas, empresas brasileiras podem não captar o fluxo que procura crescimento estrutural. Isso empurra investidores a avaliar outros critérios, como governança e balanço.
Segundo a apuração do Noticioso360, veículos que cobriram o relatório mostraram convergência nessa leitura, embora tenham dado ênfases diferentes: alguns destacaram risco político e câmbio, outros a competição por capital entre tecnologia e commodities.
Setores que podem se beneficiar
Com a mudança do perfil de entrada de capital, setores com melhorias operacionais claras, governança sólida e plano de investimento em digitalização podem atrair mais atenção. Commodities e empresas exportadoras ainda se beneficiam de preços externos, mas não necessariamente do mesmo tipo de fluxo que caracteriza o carry trade.
O que gestores e estrategistas dizem
Gestores consultados por veículos financeiros lembram que o carry trade não desaparece de forma imediata. Fluxos de portfólio respondem a sinais de juros reais e volatilidade cambial. Em momentos de maior aversão ao risco, ativos que pagam prêmio de juros podem voltar a ser procurados.
No entanto, a recomendação corrente é por uma gestão de risco mais ativa: hedge cambial consistente, seleção ativa de nomes e atenção à duração das posições. Qualquer sinal de alta clara de juros nos EUA ou deterioração fiscal no Brasil poderia reverter parte do movimento e tornar o país mais competitivo novamente.
Projeção para o segundo semestre
O panorama traçado pelo Citi não é uma sentença definitiva sobre o fim do interesse pelo Brasil, mas um alerta: a simplicidade da tese baseada apenas em diferencial de juros tende a diminuir.
Para o investidor que busca retornos consistentes no segundo semestre, a recomendação é incorporar variáveis externas — ritmo de recuperação dos EUA e avanços em tecnologia — e internas — expectativas de inflação, política fiscal e qualidade das empresas locais.
De modo prático, isso significa que alocações puras em títulos locais sem hedge ou sem análise da qualidade dos emissores podem ter performance inferior à esperada. A combinação de uma seleção mais criteriosa e mecanismos de proteção passa a ser imperativa.
Fontes
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Analistas apontam que o movimento pode redefinir o cenário político nos próximos meses.



