Registros encaminhados à redação mostram que a Go Up Entertainment, produtora da cinebiografia Dark Horse, efetuou o pagamento de ao menos quatro faturas do cartão de crédito do deputado federal Mário Frias (PL‑SP) no intervalo entre agosto e novembro de 2025.
Os extratos e comprovantes analisados pela equipe apontam valores que variam, por fatura, entre aproximadamente R$ 32.600 e R$ 36.800. As movimentações coincidem com o período de pré‑produção e produção do filme, cuja temática central é a trajetória política do ex‑presidente Jair Bolsonaro (PL).
Segundo análise da redação do Noticioso360, os documentos recebidos — que incluem comprovantes e lançamentos bancários — mostram a quitação das faturas atribuída ao CNPJ da produtora. No entanto, os papéis não esclarecem, de forma inequívoca, se os pagamentos se referem a despesas operacionais ligadas ao projeto ou a gastos de natureza pessoal do parlamentar.
O que mostram os documentos
Os arquivos encaminhados incluem comprovantes de pagamento em nome da Go Up Entertainment e lançamentos bancários que registram a baixa das faturas no CNPJ da empresa. Em linhas gerais, as movimentações aparecem mês a mês, sempre no período citado.
Além disso, registros públicos e dados sobre a ficha do projeto confirmam que Mário Frias aparece como roteirista e produtor‑executivo da obra. Essa coincidência entre função na equipe e os pagamentos observados foi o gatilho para a investigação do Noticioso360.
O que não está nos arquivos
Apesar da sequência de pagamentos registrada, os documentos não trazem notas fiscais, ordens de serviço, relatórios de despesas ou autorizações assinadas que expliquem a natureza dos lançamentos. Também não há, entre os arquivos recebidos, comprovantes de reembolso ao parlamentar ou contratos que descrevam gastos passíveis de quitação direta pela produtora.
Sem esses elementos, não é possível afirmar se as quitações se enquadram como custos legítimos da produção (como compra de equipamentos, passagens, hospedagem ou serviços técnicos) ou se correspondem a despesas pessoais do deputado.
Entrevistas e posicionamentos
O processo de apuração jornalística exige confrontação com três frentes: documentos originais, posicionamento formal da produtora e posicionamento do beneficiário. Até a publicação, o Noticioso360 não obteve resposta formal da Go Up Entertainment nem do gabinete do deputado Mário Frias que esclarecesse, por escrito, a razão dos pagamentos.
Fontes consultadas pela redação relatam que procedimentos internos de produção costumam registrar reembolsos e aprovações em notas fiscais ou ordens de serviço; a ausência desses registros torna impossível a categorização definitiva dos lançamentos com base apenas nos extratos.
Quais são as interpretações possíveis
Em análises midiáticas e jurídicas de casos semelhantes, há duas leituras recorrentes. Uma aceita que pagamentos realizados por uma produtora a cartões vinculados a profissionais da equipe possam refletir cobertura direta de custos do projeto. Outra considera que, na falta de documentação que vincule os gastos ao trabalho, há risco de vantagem pessoal e necessidade de apuração por órgãos de controle.
No caso em exame, os elementos disponíveis inclinam a narrativa para a existência de pagamentos realizados pela empresa no período de produção, mas os mesmos não permitem concluir, sem documentação complementar, que se tratem exclusivamente de despesas da obra.
Importância pública e enquadramento jurídico
A potencial relevância pública decorre da combinação entre a posição pública do beneficiário — deputado federal — e o registro de pagamentos por pessoa jurídica ligada ao projeto. Despesas privadas custeadas por empresas que atuam em produção cultural envolvendo agentes públicos demandam transparência para afastar conflito de interesse ou eventual vantagem indevida.
Embora a ocorrência de pagamento, por si só, não configure prova de ilegalidade, ela pode ensejar questionamentos éticos e desdobramentos administrativos caso órgãos de controle ou o Ministério Público decidam investigar a origem e a destinação dos recursos.
Divergências e limites da apuração
É importante frisar a diferença entre comprovação de pagamentos e comprovação de sua natureza. Os documentos demonstram a quitação das faturas, mas não fornecem justificativa legal ou contábil sobre a finalidade dos desembolsos.
Sem acesso a notas fiscais, recibos, ordens de serviço, contratos de prestação de serviços ou relatórios de despesas aprovados, qualquer conclusão definitiva seria precipitada. A reportagem manteve contato com interlocutores que poderiam esclarecer os fatos, mas não teve retorno formal até a publicação.
O que falta apurar
- Solicitar e analisar notas fiscais, recibos e ordens de serviço vinculadas às faturas pagas pela Go Up Entertainment.
- Obter posicionamento formal por escrito da Go Up Entertainment e do gabinete do deputado Mário Frias sobre a razão e eventual reembolso dos pagamentos.
- Consultar registros contábeis da produtora (balancetes, livro caixa) para identificar a classificação dos lançamentos.
- Verificar se há representações ou investigações em curso junto ao Tribunal de Contas ou ao Ministério Público.
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Fontes
Analistas apontam que o movimento pode redefinir o cenário político nos próximos meses.
Veja mais
- Empresário afirma ter transferido R$ 69 milhões ao fundo Havengate por solicitação de Daniel Vorcaro.
- Manifesto de cerca de 3.000 organizações solicita que o plenário do STF examine o caso em sessão pública e urgente.
- Decisão do STF retira monitoramento eletrônico; investigado mantém proibição de deixar o país.



