Um estudo preliminar que utilizou roupa íntima sensorizada estimou que voluntários liberam gases, em média, 32 vezes por dia — número superior às faixas tradicionalmente citadas pela literatura médica.
Segundo análise da redação do Noticioso360, a nova cifra foi obtida por meio de sensores integrados ao tecido íntimo, que detectam eventos de liberação de gases de forma contínua, incluindo episódios silenciosos e ocorrências durante o sono.
O que o estudo mediu
A pesquisa envolveu 19 participantes saudáveis que usaram a peça sensorizada por um período controlado. Os sensores registraram picos de pressão e composição de gases associados à passagem de ar pelo reto, automatizando a contagem de episódios.
Essa medição direta difere de estudos anteriores, que dependiam de autorrelato, diários intestinais ou observação clínica. Métodos baseados em relato tendem a subnotificar eventos imperceptíveis ao indivíduo, como flatulência silenciosa.
Por que a média é maior
Além da detecção de episódios silenciosos, a tecnologia captura liberações durante o sono e em situações cotidianas nas quais a pessoa não presta atenção. Por isso, a contagem total tende a aumentar quando comparada a levantamentos que pedem aos participantes que registrem manualmente cada episódio.
Pesquisadores e especialistas ouvidos por veículos que cobriram a história apontam que a diferença metodológica explica parte do aumento. Ainda assim, o caráter preliminar do estudo e o tamanho reduzido da amostra limitam a extrapolação imediata para a população em geral.
Como isso se compara com a literatura
A literatura médica clássica costuma citar entre 10 e 20 episódios de gases por dia como faixa de normalidade para adultos. Esses valores vêm de estudos em que os participantes relatavam suas emissões ou mantinham diários alimentares.
O levantamento noticiado pelo VivaBem (UOL) e a cobertura da BBC Brasil destacam que a estimativa de 32 episódios é compatível com uma contagem automatizada, mas incongruente com medidas baseadas em autorrelato. Em outras palavras, a discrepância pode refletir mais uma diferença de método do que uma mudança biológica súbita.
Fatores que influenciam a frequência de gases
A frequência de emissão gasosa varia por vários fatores individuais. Dieta (consumo de fibras, leguminosas e carboidratos fermentáveis), composição da microbiota intestinal, velocidade do trânsito gastrointestinal e ingestão de ar durante refeições são determinantes reconhecidos.
Condições médicas, como a síndrome do intestino irritável (SII), também podem aumentar a percepção e a ocorrência de gases. Por isso, números médios são indicativos e não substituem uma avaliação clínica quando há sintomas associados.
Limitações do estudo
A principal limitação é o tamanho da amostra: 19 pessoas não permitem generalizações robustas. Amostras pequenas são sensíveis a variações individuais e a possíveis vieses de seleção.
Outra questão é a validação do sensor. Instrumentos novos precisam ser comparados com padrões de referência e testados em diferentes populações (idade, sexo, etnia, padrões alimentares) para confirmar precisão e reprodutibilidade.
Viés e interpretação
Mesmo com uma tecnologia que reduz o viés do autorrelato, é preciso cuidado: detectar eventos não significa que todos tenham relevância clínica. Muitos episódios são fisiológicos e assintomáticos.
Portanto, a interpretação de uma média maior deve considerar se os episódios registrados alteram qualidade de vida ou se estão associados a sinais de alerta, como dor abdominal intensa, distensão persistente, alteração do hábito intestinal, perda de peso ou sangramento.
Contribuições metodológicas
A principal contribuição da roupa íntima sensorizada é metodológica. Ao automatizar a detecção, a tecnologia amplia a sensibilidade da medição e reduz o erro de subnotificação.
Esse tipo de instrumento pode ser útil em investigações sobre padrões normais e patológicos da fisiologia intestinal, além de potencialmente servir como ferramenta em estudos sobre a microbiota e a eficácia de intervenções dietéticas.
O que falta para validar a tecnologia
Pesquisadores esperam estudos de validação que comparem as leituras do sensor com métodos padronizados, estudos com amostras maiores e estratificadas e análises que correlacionem registros com sintomas clínicos.
Também é necessário avaliar a tolerabilidade do dispositivo em uso prolongado e sua aplicabilidade em contextos clínicos, por exemplo, no acompanhamento de pacientes com distúrbios funcionais intestinais.
Impacto prático para quem lê
Para a maioria das pessoas, a conclusão prática não muda: soltar gases é fisiológico e comum. A presença isolada de flatulência não é sinal automático de doença.
Procure avaliação médica quando houver sintomas adicionais ou quando a queixa afetar qualidade de vida. Médicos avaliam padrão, duração, fatores desencadeantes e sinais de alarme antes de indicar exames ou tratamentos.
Confronto entre reportagens
A cobertura do VivaBem destacou a novidade tecnológica e o número de 32 flatos/dia. Já matérias internacionais e revisões médicas realçaram a variabilidade individual e o histórico de 10–20 episódios/dia em estudos com autorrelato.
O contraste mostra que métodos de medição podem alterar estimativas populacionais sem, necessariamente, invalidar parâmetros clínicos já estabelecidos.
Projeção futura
A tecnologia sensorizada tem potencial para redefinir como medimos eventos fisiológicos cotidianos. Nos próximos anos, espera-se a replicação dos achados em amostras maiores, validação técnica e estudos que testem utilidade clínica em pacientes sintomáticos.
Se confirmada, a medição contínua poderá enriquecer pesquisas sobre microbiota, dieta e mecanismos de distensão abdominal, e possivelmente abrir caminho para intervenções personalizadas.
Fontes
- VivaBem (UOL) — 2024-02-15
- BBC Brasil — 2024-02-20
- Revisões médicas sobre frequência de flatulência — 2019-06-01
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Analistas apontam que a combinação entre sensores e estudos populacionais pode redefinir parâmetros de normalidade para a saúde intestinal nas próximas temporadas de pesquisa.
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