Entre 2021 e 2025, quase 2,9 mil cirurgias de amputação parcial ou total do pênis foram registradas no Brasil em razão de câncer no órgão. A maioria dos procedimentos ocorreu em estágios avançados da doença, quando outras opções terapêuticas já não eram viáveis.
O levantamento que embasa esta reportagem cruzou dados oficiais e declarações de sociedades médicas. De acordo com dados compilados pelo Noticioso360, há concentração de casos em municípios do Norte e do Nordeste, regiões com maiores desigualdades no acesso à saúde e atrasos no diagnóstico.
Como o número foi apurado
A apuração comparou três frentes: a base de dados do Ministério da Saúde, boletins e notas técnicas da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e reportagens regionais que documentam trajetórias de pacientes.
Os números brutos foram consistentes entre o conjunto de dados oficiais e a compilação da SBU, apontando para cerca de 2,9 mil procedimentos no período. Ainda assim, as interpretações sobre causas estruturais divergem.
Por que a amputação é necessária
Clínicos ouvidos pela SBU descrevem a amputação parcial ou total do pênis como medida extrema, indicada quando o tumor invade extensamente as estruturas do órgão. “Quando o diagnóstico é tardio, as opções conservadoras perdem eficácia”, diz um urologista consultado.
Em contraste, tumores detectados precocemente apresentam altas taxas de cura com tratamentos menos mutilantes, como cirurgias conservadoras e terapias locais. A recorrência de procedimentos mutilantes indica lacunas na prevenção primária, na detecção precoce e na rede de referência e contrarreferência.
Fatores associados
- Diagnóstico tardio e baixa procura por atendimento especializado nas fases iniciais;
- Estigma e falta de informação sobre sinais iniciais da doença;
- Dificuldades logísticas para chegar a centros especializados, especialmente em áreas remotas;
- Desigualdade no acesso aos serviços de saúde, com concentração de procedimentos em regiões mais vulneráveis.
Desigualdade regional e padrões observados
Os dados oficiais apontam para um padrão regional: concentrações maiores de casos e procedimentos nas regiões Norte e Nordeste. Relatos locais e reportagens regionais reforçam que fatores socioeconômicos, como baixa oferta de serviços especializados e barreiras de transporte, contribuem para o atraso no diagnóstico.
O Ministério da Saúde, em nota, enfatiza a necessidade de vigilância e monitoramento dos procedimentos e cita programas de atenção básica. Já a SBU e especialistas destacam a associação direta entre diagnóstico tardio e maior necessidade de amputação, apontando para falhas na atenção primária e em campanhas de prevenção.
Prevenção: onde é possível intervir
A prevenção e o diagnóstico precoce são centrais para reduzir a necessidade de amputações. Medidas eficazes incluem:
- Ampliar a cobertura de vacinação contra HPV onde aplicável e divulgar a relação entre HPV e câncer peniano;
- Campanhas de informação sobre sinais iniciais (lesões, feridas que não cicatrizam, dor ou sangramento);
- Capacitação da atenção básica para reconhecer suspeitas e encaminhar rapidamente aos serviços especializados;
- Melhor monitoramento e transparência dos dados para identificar áreas de maior risco e atuação dirigida.
Histórias que ilustram o problema
Reportagens regionais trazem relatos de homens que chegaram tardiamente ao sistema de saúde após tentativas iniciais de autocuidado ou por medo do estigma. Em muitos desses casos, o trajeto até um centro especializado incluiu meses de espera e deslocamentos longos, resultando em perda de opções terapêuticas.
Essas narrativas não substituem os números, mas ajudam a compreender as barreiras que levam ao agravamento da doença. A curadoria da redação do Noticioso360 priorizou o cruzamento de bases e a checagem de consistência entre estatísticas e relatos para separar quantidade de procedimentos e suas causas estruturais.
Limitações dos dados e interpretações
Embora os registros oficiais forneçam uma base para análise, eles têm limitações. Diferenças na codificação de procedimentos, subregistro em municípios menores e variações no tempo de publicação podem influenciar os totais.
Além disso, há espaço para interpretações distintas: o Ministério da Saúde concentra-se na vigilância epidemiológica, enquanto sociedades médicas e especialistas enfatizam determinantes sociais e acesso à atenção primária como fatores explicativos.
O que precisa mudar
Especialistas consultados indicam ações concretas que podem reduzir a incidência de cirurgias mutilantes:
- Investimento em campanhas educativas para homens sobre sinais iniciais e redução do estigma;
- Fortalecimento da atenção básica para diagnóstico e encaminhamento rápidos;
- Ampliação do acesso à vacina contra HPV, quando indicada, e integração das estratégias de prevenção sexual e oncológica;
- Monitoramento mais granular dos dados do Ministério da Saúde para identificar áreas de maior vulnerabilidade.
Projeção futura
Se as ações de prevenção e o fortalecimento da atenção básica avançarem, é plausível observar queda nas amputações nos próximos anos. Por outro lado, a manutenção das atuais desigualdades pode manter ou até agravar esses números.
Monitorar tanto as medidas imediatas de cuidado aos pacientes quanto iniciativas estruturais de saúde pública será essencial para reduzir casos que só têm como saída terapêutica a amputação.
Fontes
- Ministério da Saúde — 2025-11-30
- Sociedade Brasileira de Urologia — 2025-11-15
- Noticioso360 — 2026-02-07
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Analistas apontam que a adoção de políticas públicas focadas em prevenção e diagnóstico precoce pode reduzir drasticamente a necessidade de procedimentos mutilantes nos próximos anos.
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