Juristas alertam que PL 2162/2023 reduz discricionariedade judicial e pode orientar penas a grupos.

PL da dosimetria viola impessoalidade, dizem especialistas

Projeto aprovado em 17 de dezembro inclui critérios que podem limitar a autonomia do juiz na dosimetria da pena.

PL 2162/2023 e o debate sobre impessoalidade e Judiciário

O Projeto de Lei 2162/2023, aprovado pelo Congresso em 17 de dezembro, trouxe à tona um debate intenso entre juristas sobre os limites entre a ação legislativa e a autonomia do Poder Judiciário.

Críticos afirmam que dispositivos do texto parecem direcionar a aplicação de penas a determinados grupos ou condutas, mesmo sem expressa previsão nominal. Para esses especialistas, a redação implicita critérios de valoração de circunstâncias que podem resultar em tratamento desigual entre réus em situações semelhantes.

Segundo análise da redação do Noticioso360, que cruzou reportagens do G1 e da Folha de S.Paulo, a principal preocupação é que o projeto contenha termos exemplificativos e parâmetros muito detalhados que acabam por limitar a discricionariedade técnica do juiz na dosimetria — etapa em que se ponderam agravantes, atenuantes, antecedentes e a culpabilidade.

O cerne da crítica

Especialistas em Direito Penal e Constitucional ouvidos pela reportagem afirmam que a impessoalidade é princípio basilar da Administração Pública e do processo penal. “Decisões estatais e judiciais não podem visar beneficiar ou prejudicar grupos previamente delineados”, disse uma professora de Direito Penal consultada.

O ponto de tensão, na visão desses juristas, é a inclusão de critérios que, na prática, orientam juízes a aplicar penas de forma mais rígida a perfis de réus associados a determinadas práticas. Advogados criminais destacam que a norma, se interpretada de forma prescritiva, pode transformar critérios subsidiários em regras de condenação.

Usurpação de função do Judiciário?

Outra crítica recorrente refere-se à usurpação da função judiciária. Ao fixar parâmetros minuciosos para a dosimetria, o Legislativo poderia, segundo críticos, substituir o juiz na ponderação das provas e na avaliação das circunstâncias pessoais de cada condenado.

“A dosimetria exige avaliação casuística. Limitar a margem de discricionariedade técnica do juiz compromete a individualização da pena”, afirmou um desembargador aposentado ouvido pela reportagem.

A defesa do projeto

Por outro lado, defensores do PL 2162/2023 sustentam que a padronização busca combater a desigualdade entre sentenças e trazer maior previsibilidade ao sistema penal. Parlamentares favoráveis argumentam que diretrizes mais claras ajudam a uniformizar decisões e a reduzir variabilidade injustificada.

“A proposta não pretende substituir o juiz, mas oferecer critérios que orientem decisões e reduzam disparidades regionais e subjetivas”, declarou um dos autores do texto, segundo trechos disponibilizados pela assessoria parlamentar.

Leitura dupla e efeitos práticos

A análise jurídica mostra que a proposta admite interpretações distintas. Para alguns operadores do direito, a norma é avanço em segurança jurídica; para outros, uma contenção indevida da função judicante. A apuração do Noticioso360 tentou mapear esses entendimentos e separou três níveis de risco: alteração formal das regras de dosimetria; possíveis efeitos práticos sobre a discricionariedade judicial; e impacto político e simbólico na separação de poderes.

No plano prático, a norma agora segue para a etapa de sanção ou veto, dependendo do encaminhamento presidencial. Juristas consultados disseram que há base para questionamentos constitucionais, sobretudo se a lei vier a ser aplicada com interpretações que categorizem réus por atributos não previstos de forma neutra.

Implicações constitucionais e ações judiciais

Especialistas apontam que, caso a norma seja sancionada, há probabilidade de surgirem Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) e medidas cautelares em tribunais superiores. Entidades de classe e partidos políticos podem atuar como legitimados para impugnar dispositivos que, em tese, limitem competência judicial.

Tribunais superiores costumam analisar, em casos dessa natureza, se a lei cria critérios objetivos razoáveis ou se invade a seara da individualização penal. A jurisprudência tende a proteger a margem técnica do juiz quando há risco de prejuízo à análise casuística do réu.

Impacto político e simbólico

Além das questões técnicas, a aprovação do PL produz efeitos simbólicos no equilíbrio entre Poderes. Críticos afirmam que a medida sinaliza um gesto de intervenção legislativa na arquitetura institucional da Justiça, enquanto defensores veem um esforço de maior previsibilidade punitiva.

Analistas políticos avaliam que, independentemente do resultado judicial, o tema tende a mobilizar debates públicos e audiências especializadas nos próximos meses, podendo influenciar votações futuras e iniciativas legislativas correlatas.

O que muda na prática para juízes e réus

Na prática, se aplicada rigidamente, a norma pode reduzir a margem para atenuantes ou para ponderação de circunstâncias pessoais, abrindo espaço para decisões mais homogêneas. Isso pode beneficiar a percepção de isonomia em algumas demandas, mas prejudicar a adequada individualização da pena em outros casos.

Defensores públicos e advogados destacam que o efeito imediato pode ser um aumento de recursos e pedidos de revisão, à medida que a defesa busque demonstrar a inadequação da aplicação padronizada aos fatos de cada processo.

Projeção

Com a previsão de ações judiciais e debates em tribunais superiores, o cenário imediato é de contestação e escrutínio público. Analistas apontam que o movimento pode redefinir o cenário político e jurídico nos próximos meses.

Fontes

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Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.

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