Apuração sobre os mecanismos técnicos e políticos usados pelo Irã para isolar sua rede em momentos de crise.

Como o Irã corta quase toda a internet do país

O Irã combina controle da infraestrutura, ordens administrativas e técnicas como DPI e downgrade de redes para interromper conexões internacionais.

Como o corte é feito

O Irã consegue interromper quase toda a conexão à internet por meio de uma combinação de controle centralizado da infraestrutura, ordens diretas às operadoras e ferramentas de filtragem técnica. No nível prático, o resultado é o mesmo: usuários perdem acesso a serviços globais e a comunicação fica fragmentada.

Segundo análise da redação do Noticioso360, com base em reportagens da BBC Brasil e da Reuters, a arquitetura da rede iraniana facilita ações de isolamento. A concentração do tráfego internacional em poucos pontos de saída — gateways estaduais ou fortemente regulados — permite que o governo desconecte o país da internet global ao ordenar a suspensão desses links.

Uma rede nacional para manter serviços locais

O país desenvolveu uma infraestrutura interna conhecida como National Information Network (NIN). O NIN foi projetado para manter serviços locais funcionando mesmo quando o tráfego internacional é cortado. Isso significa que sites governamentais, alguns portais de notícias e aplicativos administrados por empresas ligadas ao Estado podem continuar operando, reduzindo o impacto imediato sobre serviços internos controlados pelo governo.

Fontes jornalísticas descrevem o NIN como uma peça chave na estratégia: ao permitir que a economia digital doméstica e parte da administração pública permaneçam acessíveis, o governo reduz o custo político de um blackout total.

Táticas operacionais: ordens administrativas e medidas técnicas

Além de desligar fisicamente gateways, o Irã recorre a ordens administrativas dirigidas a provedores de internet e operadoras móveis. Relatos da Reuters, por exemplo, documentam casos em que provedores receberam instruções formais para interromper ou degradar serviços durante ondas de protestos (Reuters, 2022-09-21).

Na prática, as autoridades podem pedir a suspensão de estações base móveis ou determinar que o tráfego seja limitado a padrões mais antigos, como 2G ou 3G. Esse tipo de “downgrade” torna aplicativos de mensagens e redes sociais praticamente inutilizáveis, sem necessidade de cortar cabos submarinos ou a espinha dorsal da internet em todo o país.

Inspeção profunda de pacotes (DPI) e bloqueio de protocolos

Ferramentas de inspeção profunda de pacotes (DPI) e bloqueio de protocolos são usadas para identificar e restringir tráfego específico. Técnicas como bloqueio de SNI (Server Name Indication) e filtragem de VPNs permitem limitar o acesso a sites e serviços com precisão, atacando canais de comunicação sem interromper todo o tráfego.

Especialistas consultados por veículos internacionais apontam que essas medidas são preferidas por serem mais controláveis e menos custosas do que uma desconexão total. O uso de DPI, entretanto, levanta questões de privacidade e vigilância, porque permite ao Estado monitorar e filtrar comunicações.

Jamming e limitações físicas

Há também relatos sobre o uso de interferência por radiofrequência (jamming) para bloquear sinais móveis em áreas limitadas. Por exigir grande consumo de energia e ter alcance físico restrito, o jamming é visto por analistas como uma ferramenta localizada — típica para silenciar zonas de protesto — e não como principal técnica para desligar uma rede nacional inteira.

Componentes jurídicos e administrativos

Além das ferramentas técnicas, medidas legais e regulatórias consolidam a capacidade do Estado de impor shutdowns. Leis que exigem registro e filtragem, regulamentações que submetem provedores a ordens governamentais e a centralização de pontos de peering tornam mais fácil executar interrupções dirigidas e seletivas.

Documentos e reportagens apontam um padrão recorrente: ordens emanam de ministérios — como o Ministério das Comunicações — ou de órgãos de segurança, seguidas por ações das operadoras. Em muitos casos, as decisões são pouco transparentes, o que dificulta a responsabilização pública.

Divergências sobre o “kill switch”

Há diferenças entre analistas sobre a existência e o uso de um suposto “kill switch” — um mecanismo capaz de desligar a internet por completo com um comando. Enquanto alguns especialistas afirmam que o Irã possui recursos técnicos para executar um desligamento nacional, outros defendem que o padrão predominante é a combinação de limitação de rotas, bloqueio de serviços críticos e pressão administrativa sobre provedores.

Na prática, esses dois cenários convergem: seja com um comando unificado ou com uma série de ações coordenadas, o efeito percebido pelos usuários é semelhante — perda de conectividade internacional e restrição de comunicação.

Impactos sociais e econômicos

Os cortes de internet têm impacto imediato sobre comunicações de emergência, comércio eletrônico, serviços financeiros e a organização de protestos. Pequenas e médias empresas, que dependem de plataformas online para vendas e pagamentos, sofrem interrupções que podem se traduzir em perdas financeiras significativas.

Do ponto de vista político, o isolamento digital também afeta a capacidade de mobilização e a difusão de relatos independentes ao exterior. Por outro lado, o NIN permite ao governo manter serviços essenciais sob controle, atenuando parte do custo político de um blackout total.

O que o Noticioso360 verificou

A apuração do Noticioso360 cruzou relatos de operadoras, análises técnicas e reportagens internacionais para distinguir o que é tecnicamente viável do que é politicamente plausível. Concluímos que o mecanismo mais recorrente envolve ordens administrativas a provedores centrais, apoiadas por ferramentas técnicas como DPI e limitação de rotas.

O uso extensivo de jamming em larga escala é considerado improvável devido a custos e limitações físicas, embora exista em operações localizadas. Em muitos episódios documentados, o efeito prático foi obtido sem a necessidade de desconectar a espinha dorsal da internet.

Medidas de resiliência e seus limites

Para usuários e operadores externos, medidas como diversificação de rotas, uso de criptografia e redes de retransmissão (relays) podem aumentar a resiliência. No entanto, quando o núcleo da infraestrutura é controlado politicamente, essas defesas têm limites. A centralização de gateways e o controle regulatório reduzem a eficácia de soluções técnicas individuais.

Conclusão e projeção

Em síntese, o Irã não depende de uma única técnica para derrubar a internet. A combinação de controle regulatório, infraestrutura centralizada e ferramentas de filtragem dá ao Estado meios eficientes para isolar o país digitalmente quando desejar.

Analistas apontam que o movimento pode redefinir o cenário político nos próximos meses. Para o público e para empresas internacionais, a lição é clara: arquiteturas de internet nacional fechada dependem tanto de decisões políticas quanto de tecnologia.

Fontes

Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.

Analistas apontam que o movimento pode redefinir o cenário político nos próximos meses.

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