Circula em redes e em grupos financeiros a afirmação de que um relatório identificado como “Citrini” prevê um colapso econômico global em apenas dois anos devido ao avanço da inteligência artificial (IA). A peça tem sido replicada em mensagens e prints sem indicação de link para um documento original, suscitando dúvidas sobre sua existência e metodologia.
Segundo análise da redação do Noticioso360, que cruzou referências e buscou reportagens em agências e jornais nacionais e internacionais, não foi possível localizar uma versão pública do estudo atribuída a “Citrini”. Nem veículos tradicionais nem bases acadêmicas e arquivos de imprensa consultados exibiram, até a data desta verificação, um relatório com autoria, data e metodologia claras que corroborem as alegações mais alarmistas.
O que diz a peça em circulação
As mensagens atribuídas ao suposto relatório descrevem um cenário de adoção acelerada de IAs generativas e automação capaz de provocar perdas massivas de emprego, queda abrupta na demanda e desvalorização generalizada de ativos em um horizonte de dois anos. A narrativa mistura projeções técnicas com hipóteses de reação sistêmica dos mercados.
Metodologia ausente
Apurações jornalísticas e buscas em bases de dados não encontraram o documento primário. Em estudos confiáveis, os autores costumam explicitar premissas, modelos e limitações — elementos que faltam no material atribuído a “Citrini”. Sem transparência metodológica, torna-se impossível validar cenários tão extremos ou replicar resultados.
O que a literatura e instituições sérias apontam
Organizações internacionais e centros de pesquisa reconhecem que a IA terá impactos significativos em produtividade, redistribuição de trabalho e, potencialmente, na concentração de renda. Relatórios do Fundo Monetário Internacional (FMI), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e de think tanks documentam riscos de disrupção setorial e alterações nas avaliações de risco de ativos.
No entanto, a maioria das estimativas publicadas projeta mudanças graduais ao longo de anos ou décadas, ou impactos setoriais intensos em prazos variados, em vez de um colapso global abrupto em 24 meses. Modelos que sugerem choques muito rápidos dependem de premissas específicas sobre adoção tecnológica simultânea, choques de liquidez e decisões políticas sincronizadas — variáveis que requerem demonstração empírica.
Por que narrativas alarmistas ganham tração
Mensagens de alto impacto tendem a combinar termos técnicos com previsões simplificadas. Em mercados financeiros, expectativas sobre ganhos ou perdas futuras podem levar a reajustes imediatos de preço, criando volatilidade que parece confirmar narrativas dramáticas.
Além disso, a viralidade favorece conteúdos fáceis de compartilhar, mesmo quando faltam referências. Essa dinâmica pode amplificar percepções de risco e impulsionar decisões individuais e coletivas sem base sólida em evidência primária.
Movimentos de mercado e reação real
Investidores e gestores já têm reprecificado ativos e ajustado carteiras diante da adoção acelerada de ferramentas de automação e modelos generativos. Essas reprecificações são reações a sinais de mercado e a relatórios de empresas, e não necessariamente a estudos acadêmicos verificáveis.
Limites para um colapso em dois anos
Transformações que provoquem um colapso econômico global em prazo tão curto dependeriam de uma conjunção de fatores: falhas sistêmicas nas instituições financeiras, políticas públicas ausentes ou equivocadas, mecanismos contracíclicos ineficazes e um comportamento sincronizado e massivo de liquidez. Nenhuma dessas condições foi demonstrada no material atribuído a “Citrini”.
Isso não exclui riscos significativos: a automação pode intensificar desigualdades, pressionar setores específicos e exigir políticas robustas de ajuste. Mas afirmar um colapso global exige evidência direta do estudo e transparência metodológica — que não foram encontradas pela nossa apuração.
O papel da verificação e da precaução
Recomenda-se cautela na difusão de peças sem documento fonte. Jornalismo e investidores dependem de acesso a estudos originais para avaliar premissas, cenários e probabilidades. Sem isso, decisões públicas e privadas correm o risco de se basear em boatos e extrapolações.
Para quem toma decisões, é prudente exigir documentação primária, analisar premissas e confrontar projeções com cenários alternativos e dados históricos. Políticas públicas voltadas à requalificação profissional, redes de proteção social e regulação financeira podem mitigar impactos reais da automação.
Fontes e verificação
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas e relatórios institucionais.
Analistas apontam que o movimento pode redefinir o cenário político nos próximos meses.
Fontes
- Pesquisa em agências e portais (ex.: Reuters, BBC Brasil, Valor) — nenhuma referência pública encontrada para o relatório ‘Citrini’
- Relatórios e análises públicas sobre impactos econômicos da IA (síntese de múltiplas fontes jornalísticas e institucionais)
Veja mais
- American e United somam 16% do capital da Azul após reestruturação; aporte inclui warrants e subscrições.
- Fundo Pátria vendeu 6,9% da SmartFit por cerca de R$ 890 milhões em operação entre investidores institucionais.
- Empresa reportou lucro de R$ 1,87 bi no 4T25 e comunicou programa de recompra e pagamento de JCP aos acionistas.



