Apuração cruzou relatos históricos e literatura científica; estudo de 2025 na Science não foi localizado.

Bonobos e o jogo de faz de conta: o caso Kanzi

Não há confirmação de estudo na Science (2025). Apuração do Noticioso360 cruza relatos sobre Kanzi e evidências sobre jogo simbólico em bonobos.

O que se sabe sobre Kanzi e alegações recentes

Kanzi é um bonobo que entrou na literatura científica como um dos maiores casos de cognição e comunicação entre grandes símios. Observado desde as décadas de 1980 e 1990 em estudos ligados ao Ape Initiative e ao Great Ape Trust, Kanzi aprendeu a usar lexigramas — símbolos gráficos associados a objetos ou ações — e respondeu a comandos verbais simples em inglês.

Nos últimos meses, circulou nas redes sociais a afirmação de que um estudo publicado na revista Science em 2025 demonstraria que bonobos, a exemplo de crianças humanas, praticam brincadeiras de faz de conta (pretense play) de forma comparável ao jogo simbólico infantil. A apuração do Noticioso360, entretanto, não localizou referência ao suposto artigo na base da revista nem em repositórios acadêmicos consultados.

Curadoria da apuração

Segundo análise da redação do Noticioso360, que cruzou materiais da Reuters e da BBC Brasil, as alegações parecem misturar relatos históricos sobre comportamentos observados em Kanzi com interpretações mais amplas sobre o que constitui jogo simbólico em primatas.

Contexto histórico e descobertas reconhecidas

Sob a liderança da pesquisadora Sue Savage-Rumbaugh e colaboradores, Kanzi participou de experimentos que o colocaram como referência em comunicação não verbal e compreensão básica de instruções. Estudos e reportagens documentaram habilidades notáveis: uso de ferramentas, resolução de problemas e comunicação intencional.

Esses registros consolidaram a ideia de que alguns grandes símios possuem capacidades cognitivas complexas, mas há diferença entre demonstrar compreensão simbólica — como usar um lexigrama para pedir comida — e envolver-se em jogo de faz de conta com representação simbólica espontânea.

O que é pretense play e por que é difícil comprovar

No campo da etologia e do desenvolvimento infantil, pretense play (jogo de faz de conta) é tipicamente definido por critérios rigorosos: representação simbólica espontânea, comportamento teatralizado sem finalidade instrumental direta e sinais de que o animal reconhece a discrepância entre o objeto real e o objeto imaginado.

Para humanos, esses critérios são usados em protocolos experimentais e observações longitudinais. Transferir os mesmos padrões para estudos com não humanos exige controles que excluam reforço direto, sinais de condicionamento ou uso funcional do objeto. Em uma palavra: a linha entre uso funcional e simulação deliberada é metodologicamente tênue.

O que as evidências sobre Kanzi mostram — e o que não mostram

Documentos científicos e reportagens descrevem comportamentos de Kanzi que podem ser interpretados como próximo ao jogo simbólico. Há relatos de manipulação criativa de objetos, encenação e imitação de ações humanas. Porém, poucas pesquisas forneceram contraprovas experimentais suficientes para afirmar, com os mesmos critérios usados em estudos infantis, que Kanzi ou outros bonobos praticam pretense play da mesma forma.

Parte da dificuldade é prática: distinguir uma ação instrumental (usar um galho para alcançar comida) de uma ação simbólica (usar o galho “como se” fosse outra coisa) requer protocolos experimentais específicos, observação prolongada e exclusão de reforço prévio.

A alegação sobre um estudo na Science (2025)

Durante esta checagem, a equipe do Noticioso360 procurou o suposto artigo de 2025 em repositórios acadêmicos, plataformas de periódicos científicos e na própria página da revista Science. Não foram encontradas referências consistentes ao estudo na data indicada, tampouco citações em cobertura jornalística de veículos verificados.

É plausível que a afirmação tenha se originado de uma interpretação de resultados anteriores, da circulação de um preprint ainda não revisado por pares, ou de erro de datação em posts e repostagens. Até que o artigo seja localizado e verificado, a afirmação deve ser tratada com cautela.

Implicações científicas e comunicacionais

Atribuir a um único estudo a demonstração conclusiva de jogo simbólico em bonobos não só pressiona uma conclusão além do que os dados permitem, como também pode confundir leitores sobre o estado da ciência. Resultados sobre cognição animal exigem replicação, revisões por pares e contextualização metodológica.

Por outro lado, reconhecer que Kanzi apresentou comportamentos complexos não é o mesmo que confirmar pretense play nos termos estritos usados em psicologia do desenvolvimento. A distinção é importante para o avanço do debate científico e para reportagens responsáveis.

Recomendações da apuração

  • Localizar e analisar o artigo original, caso exista, em repositórios como PubMed, Web of Science e no site da Science;
  • Contactar os autores ou instituições ligadas ao Ape Initiative e ao Great Ape Trust para esclarecimentos;
  • Em reportagens futuras, explicitar os critérios usados para classificar pretense play e diferenciar relatos anedóticos de evidência experimental controlada;
  • Priorizar links diretos às fontes primárias para facilitar verificação pelo leitor.

Fontes

Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.

Especialistas em primatologia consultados historicamente destacam que novas pesquisas, com protocolos mais refinados, podem ampliar a compreensão sobre simbolismo e jogo em não humanos.

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