Em 1997, um protocolo experimental que reuniu 36 perguntas em três blocos com intensidade crescente prometia acelerar a sensação de intimidade entre desconhecidos.
O procedimento, idealizado por Arthur Aron e colaboradores, buscava mapear como compartilhar informações pessoais em sequência poderia favorecer ligação emocional imediata. Décadas depois, a sequência voltou ao centro do debate público graças a relatos pessoais que reinterpretaram seu alcance — em especial um texto publicado na coluna Modern Love do The New York Times em 2015.
Segundo análise da redação do Noticioso360, que cruzou reportagens da BBC Brasil e da Reuters com a literatura acadêmica, a técnica mostrou efeito em ambientes controlados, mas não foi concebida pelo grupo original como uma “receita” para o amor romântico duradouro.
Como surgiu o protocolo
O estudo de Aron et al. propôs três conjuntos de perguntas aplicadas em pares que não se conheciam. Cada bloco pedia maior autorrevelação: começo com temas leves, passando por histórias pessoais e chegando a questões mais íntimas. Em amostras pequenas de laboratório, os pesquisadores observaram aumento na sensação de proximidade imediato entre os participantes.
Na época, a descoberta foi vista como um experimento interessante sobre os mecanismos da intimidade interpessoal. A conclusão dos autores foi modesta: o procedimento pode acelerar sentimentos de proximidade em curto prazo em condições específicas, mas não havia dados para afirmar que produziria amor duradouro.
Da academia para o viral
O salto para a cultura popular ocorreu com uma reportagem pessoal de Mandy Len Catron, publicada em 2015, em que ela descreveu ter se aproximado de alguém após seguir a sequência de perguntas. O relato humano ajudou a transformar um protocolo de pesquisa em uma narrativa atraente para o grande público.
Reportagens internacionais e nacionais repercutiram a história, muitas vezes com manchetes que sugeriam um método infalível para “se apaixonar”. A mídia amplificou um aspecto anedótico, criando expectativas que o próprio artigo original não sustentava.
Limitações metodológicas apontadas
Especialistas consultados em reportagens e em trabalhos subsequentes destacam várias restrições. As amostras originais eram pequenas e o contexto artificial do laboratório pode inflar efeitos temporários.
Além disso, houve poucas tentativas de replicação rigorosa com amostras maiores e seguimento longitudinal. Quando replicações foram feitas, os resultados foram mistos: alguns estudos registraram aumento de proximidade momentânea; outros não encontraram efeitos robustos fora de contextos muito controlados.
Fatores culturais, diferenças individuais e a intenção das partes (busca por intimidade rápida versus cautelosa) também influenciam qualquer resultado prático. Ou seja, o protocolo não é uma garantia universal de atração romântica.
Aplicações práticas e cuidados
Na prática, a sequência de perguntas pode funcionar como ferramenta em contextos específicos: terapêuticos, dinâmicas de grupo orientadas por profissionais ou exercícios de relacionamento com consentimento explícito.
No entanto, é fundamental lembrar que autorrevelação rápida exige sensibilidade. Especialistas ouvidos em reportagens destacam que consentimento, respeito por limites e segurança emocional devem nortear qualquer tentativa de usar o método.
Apresentá-lo como “fórmula do amor” é, segundo a apuração, um exagero. Relações duradouras dependem de fatores complexos: compatibilidade de valores, história compartilhada, comunicação cotidiana e processos de resolução de conflito, não apenas um momento de proximidade acelerada.
Cobertura no Brasil
A imprensa brasileira abordou tanto a origem científica quanto histórias pessoais que ilustram a força simbólica do protocolo. Veículos como BBC Brasil e Reuters trouxeram especialistas que diferenciam intimidade percebida de vínculo afetivo sólido e alertam para a necessidade de estudos mais robustos.
A curadoria do Noticioso360 priorizou leitura direta do artigo original, reportagens que contextualizam cientificamente o fenômeno e relatos pessoais que explicam por que a ideia ressoa com o público. Essa distinção ajuda leitores a separar evidência empírica de narrativa midiática.
O que pesquisas futuras devem investigar
Pesquisadores recomendam replicações com amostras maiores, maior diversidade cultural e acompanhamento longitudinal. É importante diferenciar aproximação momentânea de vínculos afetivos estáveis e avaliar variáveis moderadoras, como histórico emocional e intenção relacional.
Esses estudos ajudariam a definir limites de aplicação do protocolo e a orientar profissionais que o utilizem em contextos de aconselhamento ou pesquisa.
Conclusão e recomendações
O conjunto de 36 perguntas tem base experimental limitada e utilidade situacional. Pode facilitar trocas rápidas e empáticas, mas não substitui os elementos fundamentais de um relacionamento duradouro.
Para quem considerar aplicar a sequência: combine expectativas com a outra pessoa, deixe claro o propósito da atividade e respeite os limites. Evite apresentá-la como fórmula garantida de atração romântica.
Fontes
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Analistas apontam que a popularização do protocolo pode influenciar práticas de encontro e aconselhamento, mas somente pesquisas replicáveis dirão até que ponto essa influência será duradoura.



