Quatro em cada dez brasileiros (39%) relataram ter usado medicamentos sem eficácia comprovada para prevenção ou tratamento da Covid-19, aponta estudo nacional com 9.591 participantes publicado em julho na Revista de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
O levantamento quantificou o uso autorrelatado de fármacos como azitromicina, ivermectina e cloroquina/hidroxicloroquina em diferentes períodos da pandemia. Segundo os autores, os dados foram coletados por questionário e os medicamentos foram classificados conforme a evidência científica disponível até a data da pesquisa.
Segundo análise da redação do Noticioso360, com base em reportagens da Reuters e da BBC Brasil e na própria publicação acadêmica, os resultados confirmam a persistência do uso desses produtos mesmo após evidências contrárias em ensaios clínicos randomizados e recomendações de organizações de saúde.
O que o estudo mostra
O artigo apresenta números detalhados: 9.591 respondentes compõem a amostra nacional, e 39% declararam ter recorrido a algum medicamento sem eficácia comprovada para Covid-19. As substâncias mais citadas foram azitromicina, ivermectina e cloroquina/hidroxicloroquina — usadas tanto para prevenção quanto para tratamento.
As tabelas do estudo trazem distribuição por faixa etária, nível de escolaridade e região do país. Houve variação entre subgrupos: maior prevalência de uso concentrou-se entre pessoas com menor escolaridade e em áreas com maior circulação de desinformação, segundo os autores.
Métodos e limitações
Os pesquisadores detalham que a coleta ocorreu por questionários aplicados em um período específico, e que a classificação dos medicamentos seguiu a literatura disponível até a data da pesquisa. Ainda assim, a própria publicação aponta limitações importantes.
Por se tratar de autorrelato, há risco de viés de memória — respondentes podem ter esquecido ou exagerado usos. Além disso, embora a amostra seja numerosa, ela pode não reproduzir perfeitamente a distribuição sociodemográfica do país. Finalmente, os resultados refletem comportamentos em um momento da pandemia, não necessariamente padrões persistentes ao longo do tempo.
Implicações metodológicas
Essas limitações restringem a generalização direta dos números, mas não anulam a indicação de um fenômeno amplo: o uso significativo de medicamentos sem comprovação científica. A combinação de dados quantitativos e análise das características sociodemográficas ajuda a mapear onde a prática foi mais frequente.
O que dizem evidências e autoridades
Revisões sistemáticas e grandes ensaios clínicos não mostraram redução consistente de mortes ou hospitalizações associada ao uso de azitromicina, ivermectina ou cloroquina para Covid-19. Organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde, e sociedades médicas brasileiras desencorajaram o uso desses fármacos para a doença.
Além do risco clínico direto e de efeitos adversos, especialistas têm alertado para custos sociais: gastos familiares com tratamentos ineficazes, atraso na busca por terapias comprovadas e falsa sensação de proteção que pode reduzir a adesão a medidas preventivas.
Diferenças na cobertura jornalística
Ao cruzar reportagens da Reuters e da BBC Brasil com a publicação original, a apuração identificou diferenças de ênfase. A cobertura internacional tende a chamar atenção para o impacto global da desinformação e para a promoção dessas drogas por figuras públicas.
Por outro lado, reportagens nacionais frequentemente destacam as implicações políticas e a dificuldade de quantificar o efeito real desses tratamentos na mortalidade. A redação do Noticioso360 buscou integrar esses ângulos com leitura crítica dos métodos do estudo.
Consequências práticas
O uso generalizado de medicamentos sem eficácia comprovada tem efeitos múltiplos. No plano individual, há risco de reações adversas e prejuízos financeiros. No coletivo, a adoção de intervenções ineficazes pode atrasar medidas eficazes, sobrecarregar sistemas de saúde de maneira desnecessária e facilitar a disseminação de informações erradas.
Estudos sociológicos e de comunicação associados ao relatório sugerem que desinformação, acesso desigual à informação de qualidade e mensagens contraditórias de lideranças podem ter contribuído para a adoção desses tratamentos em massa.
O que a pesquisa não responde
A investigação não permite estimar, por si só, o impacto desses comportamentos na mortalidade por Covid-19. Tampouco distingue, com precisão, entre uso prescrito por profissionais e automedicação. Essas lacunas exigem estudos complementares com delineamentos que controlem vieses e que avaliem desfechos clínicos.
Conclusão e recomendações
Os achados reforçam a necessidade de políticas públicas que priorizem educação em saúde, combate à desinformação e acesso a orientações médicas baseadas em evidência. Para reduzir práticas de risco, especialistas recomendam reforçar campanhas informativas, melhorar a comunicação entre serviços de saúde e população e ampliar a fiscalização de promoção de tratamentos sem comprovação.
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Fontes
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