Gravações de 18 de fevereiro mostram tensão entre policiais na cena em que a soldado Gisele Alves foi baleada.

‘Vou tomar banho, irmão’, diz tenente‑coronel em body cam

Imagens registradas por body cams reavivam questionamentos sobre versão inicial de suicídio e geram nova fase de investigação.

Gravações expõem choque entre preservação de provas e decisões no local

Imagens captadas por câmeras corporais no dia 18 de fevereiro mostram tensão entre policiais militares na cena em que a soldado Gisele Alves foi encontrada com um disparo na região craniana.

O material entregue à redação registra um diálogo que ganhou centralidade na apuração: um oficial de alta patente, identificado por testemunhas como marido da vítima, é ouvido dizendo “Vou tomar banho, irmão” enquanto há movimentações no local. A frase aparece em meio a instruções e reações de agentes e familiares que estavam no entorno.

De acordo com análise da redação do Noticioso360, as imagens mostram conflito claro entre orientações para preservação de vestígios e decisões tomadas por hierarquias e por pessoas com laços pessoais com a vítima — elementos que, segundo investigadores consultados, motivaram reavaliação da versão inicial de suicídio.

O que mostram as imagens

As filmagens, datadas de 18 de fevereiro, combinam trechos de áudio e vídeo em que é possível acompanhar a chegada da equipe, a identificação da vítima e as primeiras comunicações entre os policiais.

Em vários momentos, um cabo é ouvido pedindo cautela: “Não toca em nada, isola aqui, isolou?”, enquanto outros agentes orientam a presença de familiares e a necessidade de resguardar a integridade física das pessoas no local. A gravação documentaliza uma situação de tensão: a preocupação com evidências e a reação humana diante de um corpo encontrado em circunstâncias traumáticas.

Fontes que analisaram o material para esta reportagem dizem que há trechos em que o tenente‑coronel prioriza ações voltadas à segurança imediata de colegas e parentes presentes, postura que, para esses oficiais, justificaria algumas condutas adotadas no local. Por outro lado, a insistência do cabo e de outros agentes para isolar e preservar objetos é clara nas falas registradas.

Versão inicial e reabertura de hipóteses

Relatórios preliminares da corporação apontaram, nos primeiros momentos, que o caso poderia configurar suicídio. No entanto, segundo investigadores com acesso ao material, a filmagem e sinais observados na cena — trajeto do projétil, posição do corpo e vestígios no entorno — levaram a equipe a revisar a hipótese inicial.

“A partir das imagens, passaram a ser requisitados novos exames periciais e diligências complementares”, afirmou um investigador que preferiu não se identificar. Até o momento, não há conclusão pública que determine se houve crime doloso, culposo ou suicídio. Laudos técnicos ainda são aguardados para embasar qualquer definição.

Procedimentos e responsabilidades

A Corregedoria da corporação e a Polícia Civil foram acionadas para conduzir investigações paralelas. A Corregedoria avalia condutas administrativas dos militares presentes; a Polícia Civil apura eventual crime. Fontes qualificadas consultadas pela reportagem indicam que a filmagem tem valor probatório e poderá orientar pedidos de novas diligências.

Autoridades da corporação afirmaram, em nota, que os procedimentos internos foram adotados conforme o protocolo vigente. Familiares e advogados contestam a rapidez de algumas ações na cena e pedem transparência nas etapas de investigação.

Isolamento do perímetro e atuação de familiares

O vídeo mostra a presença de parentes próximos no entorno da ocorrência, fato que, segundo peritos, pode dificultar a preservação do local. Em uma sequência, há movimentação de objetos e diálogos sobre a necessidade de “não mexer” em determinados pertences.

Peritos ouvidos pela reportagem ressaltam que a atuação de pessoas sem treinamento ao redor de uma cena de crime pode alterar vestígios essenciais, razão pela qual a preservação inicial costuma ser um procedimento enfatizado em protocolos.

Elementos técnicos pendentes

Investigadores consultados destacam que elementos técnicos como trajeto do projétil, compatibilidade balística, exame de pólvora nas mãos e eventuais marcas de luta são decisivos para a conclusão. Esses exames dependem de coleta adequada e de perícia laboratorial, cujos prazos variam conforme demanda e complexidade.

“Só com laudos periciais teremos condições de confirmar a dinâmica do disparo e a possibilidade de autoria”, explicou um especialista em criminalística. A reportagem apurou que pedidos formais por novos laudos e oitivas de testemunhas estão previstos no cronograma das investigações.

Cronologia apurada

Segundo compilação de registros por nossa equipe, a sequência inicial dos fatos inclui: chegada da equipe policial ao local; constatação de que a vítima havia sido atingida por um disparo; comunicação entre os militares; tentativa de isolamento do perímetro; e encaminhamento do corpo ao Instituto Médico‑Legal (IML).

Os trechos das câmeras corporais exibem pontos de atrito operacional, sobretudo quando há divergência entre a necessidade de preservação de vestígios e decisões imediatas de agentes com vínculo pessoal com a vítima.

Reações institucionais e familiares

A corporação informou que abriu procedimentos administrativos e que coopera com as investigações da Polícia Civil. A Corregedoria também acompanha o caso. Familiares, por meio de representantes, manifestaram preocupação com a condução inicial da cena e pedem transparência e independência nas perícias.

Advogados que representam parentes informaram que poderão pedir perícias independentes e acesso a todos os arquivos de vídeo e áudio. A reportagem solicitou posicionamento formal da defesa do oficial citado nas gravações e aguarda retorno.

Possíveis desdobramentos

Fontes jurídicas e policiais consultadas pela reportagem apontam que, caso a perícia técnica aponte indícios de crime, a investigação poderá migrar para uma linha que busque responsabilização penal. Administrativamente, militares podem responder a procedimentos disciplinares se for constatada conduta inadequada.

Por outro lado, se os laudos confirmarem a versão de suicídio, a apuração deverá focar em circunstâncias que envolveram a ocorrência e em eventuais falhas procedimentais no atendimento à cena.

O que a redação recomenda

Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em documentos e depoimentos obtidos pela reportagem.

Fontes

Reportagem e curadoria: Noticioso360.

Analistas apontam que o desenrolar das perícias e a disponibilização completa das imagens podem redefinir linhas de investigação e gerar novas diligências nos próximos meses.

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