Ex-diretor do BC alerta que risco fiscal e baixa produtividade limitam cortes mais profundos da Selic.

Para Torós, Selic que foi teto pode virar piso

Mário Torós afirma que fragilidade fiscal e produtividade estagnada podem manter a Selic elevada; Noticioso360 confronta dados, documentos e análises.

O ex-diretor do Banco Central Mário Torós afirmou em entrevista recente que a taxa Selic, que por anos funcionou como teto para os custos financeiros, corre o risco de se transformar em um novo piso da economia brasileira.

Segundo Torós, a combinação entre fragilidade fiscal e ganhos de produtividade limitados reduz o espaço para cortes mais expressivos dos juros reais, o que pode manter a Selic em patamares elevados por mais tempo do que o mercado antecipa.

De acordo com análise da redação do Noticioso360, que cruzou declarações públicas, documentos oficiais e estudos de mercado, há fundamentos que sustentam o argumento, ainda que o cenário não seja unívoco.

Por que a Selic pode virar um “piso”

Torós articula o argumento em duas frentes. A primeira é a fiscal: déficits persistentes, combinado com regras fiscais pouco claras, elevam o prêmio de risco exigido por investidores domésticos e estrangeiros.

“Mesmo com inflação em recuo, a percepção de risco fiscal tende a sustentar taxas de juros mais altas como prêmio de proteção contra surpresas orçamentárias”, disse o ex-diretor em trecho da entrevista disponibilizada à imprensa.

Na prática, isso significa que, em cenários em que a trajetória da dívida pública é questionável, investidores exigem retornos maiores — o que eleva o que o mercado chama de piso dos juros de longo prazo.

Produtividade e qualidade do crescimento

A segunda frente destacada por Torós é a qualidade do crescimento. Para o ex-diretor, uma recuperação econômica sem incremento sustentado de produtividade traduz um avanço frágil.

“Sem crescimento de produtividade, a economia não gera espaço sustentável para reduzir juros reais sem sacrificar a oferta e a estabilidade de preços”, afirmou Torós.

Dados oficiais compilados pela redação do Noticioso360 mostram anos de crescimento da produtividade por trabalhador aquém do necessário para ancorar juros mais baixos de forma permanente. Esses indicadores são usados como termômetro da capacidade da economia de sustentar crescimento sem pressão inflacionária adicional.

O papel da independência do Banco Central

Torós também ressaltou que instrumentos de política monetária não atuam isoladamente: operam em um ambiente institucional e fiscal. Assim, a independência do Banco Central, embora crucial, tem limites práticos quando as contas públicas geram maior volatilidade nos prêmios de risco e na curva de juros.

Documentos oficiais do próprio Banco Central, como atas do Copom e relatórios macroeconômicos, demonstram preocupação recorrente com riscos fiscais e a influência desses riscos sobre as expectativas de inflação e sobre a precificação dos juros.

O que dizem os mercados e os dados

Fontes de mercado ouvidas por veículos especializados apontam que, em cenários de incerteza fiscal, investidores tendem a embutir prêmios adicionais, elevando o custo do financiamento e, por consequência, o chamado piso dos juros.

Em contraste, cenários com ajuste fiscal claro e reformas estruturais poderiam abrir espaço para cortes mais acentuados da Selic no médio prazo, reduzindo o custo do dinheiro.

A apuração do Noticioso360 cruzou três frentes: declarações públicas de autoridades, análises de mercado e indicadores oficiais de produtividade e contas públicas — incluindo série histórica da dívida bruta como proporção do PIB e evolução das receitas primárias do governo.

Divergências entre economistas

Nem todos os analistas concordam com a leitura de Torós. Alguns economistas consultados por grandes jornais destacam que a queda estrutural da inflação global, somada à credibilidade da política monetária, pode permitir um afrouxamento maior dos juros do que o ex-diretor sugere.

Esses analistas lembram que fatores externos — como preços de commodities, fluxos de capital e choques globais — também influenciam fortemente a trajetória da Selic e que uma janela internacional favorável poderia reduzir prêmios de risco, mesmo sem medidas fiscais profundas.

Limitações e cenário de incerteza

Importante destacar limitações: a declaração de Torós foi divulgada como trecho de entrevista parcial, sem acesso ao conjunto completo de dados e argumentos. Além disso, projeções de juros estão sujeitas a elevado grau de incerteza, dependente de choques imprevisíveis.

Com base em documentos oficiais e análises de mercado verificadas até o momento, há consenso sobre a existência de riscos fiscais que podem elevar prêmios de risco e sustentar juros reais mais altos. Ainda assim, transformar essa hipótese em previsão numérica — por exemplo, afirmar que a Selic ficará permanentemente em torno de 12% — requer evidências adicionais sobre o rumo fiscal e sobre a dinamização da produtividade.

O que monitorar

  • Propostas de ajuste fiscal em tramitação no Congresso e cronograma de reformas.
  • Atas do Copom e Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central.
  • Indicadores de produtividade, balanço externo e evolução das receitas primárias.

Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.

Fontes

Analistas apontam que o movimento pode redefinir o cenário político nos próximos meses.

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