Em cidades afetadas por ataques e bombardeios, alguns civis descrevem uma reação contraditória: ao mesmo tempo em que sentem medo, relatam uma excitação física intensa durante as explosões. Relatos pessoais, citados em reportagens internacionais, falam de uma descarga de adrenalina que pode gerar desejo de reviver a sensação — termo frequentemente rotulado na imprensa como “vício em adrenalina”.
Segundo análise da redação do Noticioso360, com base em reportagens da Reuters e da BBC, esses relatos aparecem de forma recorrente em entrevistas locais, mas há consenso entre especialistas de que metáforas populares não são equivalentes a diagnósticos clínicos.
“Eu sei que é perigoso, mas meu corpo parece querer sentir aquilo de novo”, diz Margarita, moradora ouvida em matéria jornalística sobre a vida sob ataques. O depoimento ilustra a tensão entre compreensão racional do risco e a resposta corporal automática ao estresse agudo.
Como especialistas explicam a sensação
Psicólogos e neurocientistas consultados por veículos internacionais explicam que a combinação de excitação e medo pode resultar de mecanismos biológicos do estresse. O eixo hipotálamo–hipófise–adrenal, responsável por regular hormônios como o cortisol e pela liberação de adrenalina, reage de forma intensa diante de ameaças.
Além disso, a exposição repetida a eventos traumáticos pode levar a processos de acostumamento e mudanças nos circuitos de recompensa do cérebro. “Não é incomum que o corpo aprenda a associar estímulos ameaçadores a picos fisiológicos que, eventualmente, são percebidos como intensos ou até prazerosos em um nível sensorial”, explica uma pesquisadora de trauma citada pela cobertura.
Dessensibilização e hipervigilância
Especialistas alertam para duas tendências que podem coexistir: dessensibilização, em que respostas emocionais se tornam menos intensas com o tempo; e hipervigilância, um estado de alerta constante que amplifica reações a sinais de perigo.
“A dessensibilização não significa que a pessoa está bem”, observa um clínico. “Ela pode apenas ter alterado suas respostas emocionais e fisiológicas para lidar com uma realidade de perigo prolongado.”
Por que o termo “vício” é problemático
Na cobertura popular, a expressão “vício em adrenalina” é usada para descrever buscadores de risco em contextos pacíficos, como praticantes de esportes extremos. No entanto, aplicá-la a civis submetidos à violência contínua pode confundir metáfora e patologia.
A apuração do Noticioso360 indica que, embora relatos de excitação existam, não há reconhecimento formal nos manuais diagnósticos de um transtorno chamado “vício em adrenalina”. O que se documenta, por outro lado, são alterações comportamentais e fisiológicas associadas ao trauma crônico.
Limites entre linguagem jornalística e clínica
Reportagens, como as da Reuters, tendem a equilibrar depoimentos individuais com comentários de especialistas em saúde pública. Já coberturas aprofundadas da BBC costumam privilegiar relatos pessoais, oferecendo uma narrativa íntima das experiências.
Em ambos os formatos, há preocupação explícita em não transformar descrições subjetivas em diagnósticos sem avaliação clínica formal. O cuidado editorial é importante para evitar a estigmatização de sobreviventes.
O que falta em pesquisa
Pesquisas longitudinais e epidemiológicas no terreno são essenciais para distinguir entre adaptações normais ao perigo e padrões que possam evoluir para transtornos psiquiátricos. A redação do Noticioso360 destaca a escassez de trabalhos que combinem medidas neurobiológicas, avaliações clínicas padronizadas e relatos qualitativos em populações afetadas pela guerra.
Sem dados de longo prazo, é difícil estimar prevalência, fatores de risco ou a trajetória dessas reações ao longo do tempo. Estudos controlados poderiam, por exemplo, examinar alterações no eixo HPA, marcadores de inflamação e práticas de coping social.
Recomendações práticas de especialistas
Profissionais indicam intervenções comunitárias como prioridade imediata. Entre as ações sugeridas estão a ampliação do acesso a serviços psicoeducativos e a triagem rotineira para transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e outras condições relacionadas ao trauma.
Programas que ensinem técnicas de regulação emocional, suporte entre pares e estratégias de redução de risco no cotidiano podem mitigar efeitos adversos. “Precisamos distinguir entre um relato coloquial e um quadro clínico que exija tratamento especializado”, afirma uma terapeuta citada em reportagem.
Implicações para políticas públicas
Governos e organizações humanitárias devem considerar a saúde mental na resposta a crises: investimento em serviços básicos, capacitação de trabalhadores comunitários e campanhas de esclarecimento ajudam a reduzir o estigma e a confusão entre metáfora e diagnóstico.
Conclusão e projeção
Os relatos de excitação durante explosões são sinais importantes de alterações emocionais e fisiológicas em populações civis expostas à guerra. Não são, por si só, prova de um “vício” no sentido clínico, mas merecem atenção como indicadores de sofrimento e adaptação.
Se pesquisas futuras confirmarem padrões persistentes de comportamento e alteração neurobiológica, é provável que políticas de saúde mental sejam revisadas para integrar intervenções específicas a longo prazo. Até lá, o foco recomendado é a triagem, o apoio comunitário e o desenvolvimento de estudos longitudinais no terreno.
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Fontes
Analistas apontam que a atenção a esses relatos pode orientar políticas de saúde mental e pesquisas científicas nos próximos meses.



