Por que a comparação entre andropausa e menopausa é enganosa
A ideia de que a maioria dos homens precisa de reposição de testosterona ganhou força em consultórios e redes sociais. Porém, diferentemente da menopausa — um evento fisiológico bem definido nas mulheres — a queda de testosterona nos homens costuma ser gradual e heterogênea.
Segundo análise da redação do Noticioso360, com base em reportagens da Reuters e da BBC Brasil, a queda média dos níveis de testosterona com a idade não configura automaticamente uma doença que precise de reposição hormonal.
Diagnóstico: hipogonadismo é uma condição, não um sinal de idade
O diagnóstico de hipogonadismo exige critérios clínicos e laboratoriais. Não basta um sintoma isolado ou um exame pontual. Diretrizes médicas recomendam a avaliação de sintomas consistentes — como perda marcada de libido, fadiga patológica e perda de massa muscular — e pelo menos duas dosagens de testosterona total em sangue colhido pela manhã.
Além disso, é essencial excluir causas reversíveis: uso de medicamentos, distúrbios do sono, obesidade, doenças crônicas, ou problemas na hipófise e testículos. Só quando há evidência de níveis persistentemente baixos associados a sintomas relevantes é que a reposição pode ser considerada.
Exames e acompanhamento
Profissionais alertam para a necessidade de repetição dos exames e avaliação sistêmica. O acompanhamento, quando a terapia for iniciada, deve incluir monitoramento dos níveis hormonais, hemoglobina e hematócrito, função hepática, perfil lipídico e investigação prostática conforme a idade e fatores de risco.
Benefícios comprovados — e limites
Estudos clínicos randomizados mostram benefícios da testosterona em homens com hipogonadismo confirmado: melhora na densidade óssea, composição corporal e sintomas sexuais. Porém, esses ganhos dependem da escolha adequada dos pacientes.
Há menos evidências sobre efeitos a longo prazo em idosos com múltiplas comorbidades. Ensaios clínicos costumam incluir populações selecionadas, e a generalização dos resultados para homens com outros problemas de saúde é limitada.
Riscos e incertezas
A prescrição indiscriminada pode acarretar efeitos adversos: alteração do perfil lipídico, retenção de líquidos, aumento do risco trombótico e impacto sobre a fertilidade — já que a reposição pode suprimir a produção endógena de espermatozoides.
O risco cardiovascular é tema de debate. Estudos observacionais ofereceram resultados conflitantes e levantaram alertas, enquanto revisões sistemáticas concluem que é preciso mais pesquisa robusta para definir segurança em longo prazo, especialmente em populações mais velhas.
Variação nas práticas clínicas no Brasil
Reportagens investigativas e entrevistas com médicos mostram cenários distintos: clínicas que seguem protocolos de endocrinologia, centros que exigem exames repetidos e outras estruturas com triagens mais flexíveis.
Alguns relatos apontam para prescrições iniciadas sem investigação completa, impulsionadas por narrativas comerciais ou expectativas de resultados rápidos. A variação reforça a necessidade de protocolos claros e fiscalização profissional.
O papel do marketing e da narrativa simplista
Em muitos casos, o aumento nas receitas de testosterona nas últimas décadas foi associado a campanhas comerciais e a uma mensagem simplificada de que o envelhecimento masculino equivale a um problema tratável com hormônio.
Essa narrativa pode criar demanda inadequada e mascarar diagnósticos tratáveis com outras intervenções, como melhora do sono, controle do peso, tratamento de depressão ou ajuste de medicamentos que interfiram nos níveis hormonais.
Como os médicos devem tomar decisões
Especialistas consultados por reportagens defendem decisões baseadas em evidências: avaliar sintomas, repetir exames, investigar causas secundárias e discutir benefícios e riscos com o paciente.
Quando a terapia for iniciada, o tratamento deve ser monitorado por um especialista (endocrinologista ou urologista familiarizado com hormonioterapia), com revisões periódicas e critérios claros para manutenção ou suspensão.
Recomendações práticas para pacientes
- Procure avaliação médica antes de considerar reposição hormonal.
- Solicite dosagens de testosterona pela manhã, em pelo menos duas ocasiões separadas.
- Peça investigação de causas reversíveis (medicamentos, sono, doenças crônicas).
- Discuta possíveis efeitos adversos, inclusive sobre fertilidade e risco cardiovascular.
Curadoria e responsabilidade
A curadoria do Noticioso360 reforça que a reposição hormonal masculina tem lugar legítimo na medicina, mas não pode ser banalizada. Separar indicação clínica de modismo é responsabilidade de médicos, reguladores e pacientes.
Projeção
À medida que pesquisas com populações mais velhas e comorbidades avançarem, é provável que surjam recomendações mais refinadas. Reguladores e sociedades médicas podem intensificar diretrizes para coibir práticas comerciais e reduzir prescrições inadequadas.
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Fontes
Analistas apontam que o movimento em torno da reposição hormonal pode redefinir debates sobre regulação e prática médica nos próximos anos.
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