Fluxos vermelhos na geleira Taylor são salmoura hipersalina rica em ferro que oxida ao emergir, não sangue.

Cascatas de sangue na Antártida: salmoura e ferro na Taylor

As 'cascatas de sangue' da geleira Taylor resultam de salmoura hipersalina rica em ferro que oxida ao contato com o ar; há microrganismos adaptados.

Geleira Taylor: por que a face derrete em vermelho

Uma mancha vermelha escorre pela face da geleira Taylor, nos Vales Secos de McMurdo, na Antártida, e chama atenção de cientistas e curiosos ao redor do mundo. À primeira vista, o fenômeno remete a sangue, mas a explicação aceita pela comunidade científica é inteiramente geológica e química.

Segundo análise da redação do Noticioso360, com base em reportagens da BBC Brasil e da Reuters, o fluxo é uma salmoura hipersalina que permanece líquida sob temperaturas muito baixas e contém ferro dissolvido. Quando essa água rica em ferro emerge à superfície e encontra oxigênio, ocorre oxidação rápida do ferro dissolvido, produzindo óxidos que pigmentam o escoamento com tons que vão do vermelho-escuro ao castanho.

O que é a “cascata de sangue”

O apelido popular — “cascata de sangue” ou “blood falls” em inglês — descreve o aspecto visual, não a composição. Trata-se de água extremamente salgada, cuja alta concentração de sais reduz o ponto de congelamento e permite que ela flua mesmo em ambiente subglacial.

Essa salmoura provém de reservatórios antigos presos sob o gelo, possivelmente formados por água do mar aprisionada em períodos geológicos passados ou por processos locais de concentração salina. Fraturas e caminhos permeáveis na geleira permitem que a água migre até a face e aflore.

Composição química e oxidação

Análises laboratoriais mostram níveis elevados de ferro dissolvido na água. Ao emergir, o ferro Fe(II) é oxidado para Fe(III) por ação do oxigênio atmosférico, formando óxidos e hidróxidos de ferro que têm cor avermelhada. Esse processo é separado da presença de material orgânico em grande escala: não há evidência de sangue animal nem de derramamento orgânico.

Pesquisadores também apontam que as condições anóxicas (baixa disponibilidade de oxigênio) no reservatório subglacial favorecem a permanência do ferro em formas dissolvidas. A simples exposição ao ar desencadeia a transformação química que pinta a superfície.

Vida microbiana em condições extremas

Por outro lado, estudos citam comunidades microbianas especializadas que vivem nessas salmouras. Microrganismos quimiossintéticos adaptaram-se a temperaturas baixas, alta salinidade e baixa disponibilidade de oxigênio.

Embora a cor seja explicada principalmente pela oxidação inorgânica do ferro, microrganismos podem participar indiretamente em reações do ciclo do ferro — por exemplo, por oxidação ou redução microbiana do ferro — influenciando a química local. Em resumo: a coloração é um fenômeno geoquímico com contribuição microbiana secundária, segundo a literatura.

O que as reportagens e estudos dizem

Matérias da BBC Brasil e da Reuters relataram a presença de água hipersalina sob o gelo e descreveram o processo de oxidação que produz a cor característica. Enquanto reportagens jornalísticas costumam enfatizar o impacto visual e a curiosidade pública, artigos científicos investigam a composição, a origem e a idade do reservatório, além da ecologia microbiana.

Há divergências metodológicas sobre a origem exata da água — se é essencialmente água do mar aprisionada ou resultante de processos locais de derretimento e concentração. Também variam as estimativas sobre a idade do corpo hídrico: pesquisas descrevem a água como “antiga” em termos geológicos, mas os intervalos estimados dependem de técnicas isotópicas e modelos utilizados.

Implicações científicas e ambientais

Os fluxos na geleira Taylor são um laboratório natural para estudar como solo, água e gelo interagem em condições extremas. Eles ajudam a entender processos de preservação de compostos químicos, adaptações microbianas e, potencialmente, estratégias para procurar vida em ambientes análogos extraterrestres.

Do ponto de vista ambiental, especialistas consultados recomendam monitoramento contínuo. A exposição prolongada de óxidos de ferro e outros compostos na superfície pode alterar a química local e afetar ecossistemas microbianos ligados ao gelo e ao solo.

Próximos passos e recomendações

Pesquisadores ouvidos pela redação defendem campanhas adicionais de amostragem, análises isotópicas para determinar a origem e a idade do reservatório, e monitoramento remoto para mapear variações sazonais no escoamento. Também são recomendadas avaliações ambientais sobre impactos da exposição contínua de metais à superfície.

Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.

Fontes

Especialistas apontam que estudos adicionais podem redefinir nossa compreensão sobre reservatórios subglaciais e a interação entre química, gelo e vida microbiana.

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