No Copan, mais de 200 unidades aparecem em sites de hospedagem; moradores e proprietários divergem sobre impacto.

Airbnb e o Copan: o conflito entre moradores e hospedagem

Apuração sobre anúncios em plataformas no Copan, implicações jurídicas e convivência entre residentes e hóspedes.

O Copan, ícone modernista de Oscar Niemeyer e um dos maiores prédios residenciais de São Paulo, registra nos últimos meses uma presença crescente de anúncios de curta duração em plataformas de hospedagem. Moradores relatam mudanças na rotina do edifício e preocupação com segurança e uso das áreas comuns.

Segundo relatos de vizinhos e dirigentes do prédio, a circulação de pessoas desconhecidas e episódios de barulho têm se tornado mais frequentes. De outro lado, proprietários que anunciam apartamentos justificam a prática como fonte de renda complementar, diante de custos elevados de condomínio e flutuações no mercado de locação.

De acordo com análise da redação do Noticioso360, cruzando levantamento próprio com reportagens do período, mais de 200 das 1.116 unidades do Copan chegaram a ser anunciadas em plataformas de hospedagem em fevereiro de 2026. A apuração considerou anúncios públicos, decisões administrativas do condomínio e depoimentos de moradores e síndicos.

Como a presença de anúncios altera a convivência

Moradores descrevem um aumento da rotatividade dentro do edifício. “Antes, reconhecíamos as pessoas pelo convívio; hoje chegam e vão embora em poucos dias”, diz uma moradora que pediu para não ser identificada. Reclamações sobre festas, ruídos noturnos e uso inadequado das áreas coletivas — como piscina e salão de festas — aparecem com frequência em atas de assembleias e mensagens de grupos internos.

Administradores do condomínio afirmam que, embora a legislação municipal e as normas internas não tenham proibido explicitamente o aluguel por temporada nos últimos anos, medidas disciplinares têm sido adotadas quando hóspedes descumprem regras. Multas, advertências e, em casos extremos, ações judiciais aparecem como instrumentos utilizados pelos conselhos de síndicos.

Impactos no dia a dia e no comércio local

A mudança no perfil de ocupação afeta também o comércio nas imediações. Lojistas notam aumento na demanda por serviços ligados ao turismo e hospitalidade, como entregas rápidas e limpeza, mas reclamam da perda de clientela fixa que antes sustentava negócios locais. “Há mais circulação, mas menos fidelidade”, avalia um comerciante da região central.

O debate jurídico: propriedade vs. coletividade

O centro da disputa é jurídico. Especialistas consultados indicam que a proibição absoluta do aluguel por temporada em condomínio depende da redação da convenção e do regimento internos. Em alguns casos, decisões judiciais têm autorizado restrições quando comprovado prejuízo coletivo; em outros, os tribunais protegeram o direito de propriedade e uso econômico do imóvel.

“Cabe ao condomínio demonstrar que a prática gera danos concretos ao bem-estar coletivo”, explica uma advogada especializada em direito imobiliário. Quando há provas de perturbação da ordem, a Justiça tende a aceitar limitações que preservem a segurança e a convivência, ponderando sempre entre o direito individual e o interesse coletivo.

Além disso, municípios brasileiros têm buscado atualizar regulações para exigir cadastro de anúncios, recolhimento de tributos e cumprimento de regras sanitárias e de segurança. A falta de uma norma uniforme no país amplia as interpretações e dificulta soluções padronizadas.

Medidas internas e administrativas

Conselhos de síndicos do Copan vêm adotando medidas administrativas, como revisão de cláusulas de convenção, aplicação de multas e esforços para mapear anúncios ativos. Em assembleias recentes, moradores organizaram comitês para fiscalizar entradas e saídas e para formalizar registros de ocorrências.

Quando hóspedes descumprem normas — por exemplo, promovendo festas ou deixando lixo em áreas comuns — a gestão do prédio tem registrado ocorrências e solicitado às plataformas a remoção dos anúncios ou o contato com anfitriões. Nem sempre há resposta rápida, segundo representantes do condomínio ouvidos pela reportagem.

Perspectiva dos proprietários

Proprietários que optam por locação de curta duração apontam que a renda gerada ajuda a cobrir despesas condominiais e impostos. Para muitos, especialmente em um cenário econômico instável, a prática é uma alternativa viável à locação tradicional, que exige contratos longos e garantias.

“É uma maneira de manter o imóvel útil e gerar receita”, afirma um dono de apartamento que anuncia esporadicamente. Porém, ele admite a necessidade de regras claras e de comunicação com o condomínio para reduzir conflitos.

Mapeamento e transparência

A apuração do Noticioso360 combinou levantamento de anúncios públicos, entrevistas com moradores, administradores do prédio e análise de reportagens de veículos como BBC Brasil e G1. Quando não foi possível obter posicionamento formal de plataformas ou de todos os envolvidos, a redação registrou tentativas de contato no fechamento da matéria.

Mapear anúncios e manter registros públicos auxilia decisões coletivas. Alguns condomínios têm investido em tecnologia e contratos padronizados para informar hóspedes sobre regras do prédio antes do check-in, buscando evitar infrações por desconhecimento.

Consequências urbanas e sociais

A transformação parcial de prédios como o Copan tem efeitos na dinâmica urbana. A rotatividade maior altera o tecido comunitário, reduzindo a sensação de pertencimento para moradores tradicionais. Em contrapartida, há impulso a serviços de curta duração e mudanças no perfil do comércio local.

O fenômeno também levanta questões sobre a função social da moradia em áreas centrais e sobre políticas públicas que equilibrem turismo, renda e direito à moradia estável.

Projeção futura

Sem uma convergência normativa — seja por meio de convenções mais restritivas, decisões judiciais com precedentes claros ou legislação municipal — o conflito tende a se prolongar. Movimentos locais apontam para caminhos possíveis: maior fiscalização, cláusulas contratuais claras e regulamentações municipais que exijam cadastro e tributos específicos.

Analistas afirmam que a polarização entre renda e moradia deve continuar enquanto não houver regras uniformes que reconciliem propriedade privada e bem-estar coletivo.

Fontes

Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.

Analistas apontam que o movimento pode redefinir o uso do solo urbano e as regras de convivência nos próximos meses.

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