Quem olhasse para o céu às 19h45 da noite de 17 de fevereiro de 1875, no Rio de Janeiro, encontrou descrições de “clarões” e “luzes no céu” em vários jornais locais — um conjunto de relatos que, quando cruzado com evidências científicas sobre tempestades geomagnéticas, torna plausível a identificação do fenômeno como uma aurora austral vista em latitude relativamente baixa.
Noticioso360 compilou os relatos de periódicos do período e confrontou as descrições com explicações científicas sobre clima espacial. A apuração encontrou coerência temporal e descritiva entre as matérias, que mencionam cor, duração e movimento compatíveis com relatos históricos de auroras.
O que os jornais relataram
A primeira evidência vem de anúncios, notas e crônicas publicadas na noite de 17 de fevereiro e nos dias seguintes em jornais do Rio de Janeiro. Cronistas e leitores descreveram faixas luminosas, clarões que surgiram ao anoitecer e, em algumas menções, colorações que variaram entre o brilho esbranquiçado e tons avermelhados.
Textos da época usam termos como “luzes”, “brasa no céu” ou “clarões” — vocabulário que reflete tanto a linguagem jornalística do século XIX quanto a tentativa de explicar um fenômeno incomum. As descrições incluem hora aproximada, direção aparente no céu e uma sensação coletiva de surpresa, o que reduz a probabilidade de relatos isolados ou fabricados.
Como a ciência explica o fenômeno
Auroras ocorrem quando partículas carregadas emitidas pelo Sol interagem com o campo magnético e a atmosfera da Terra, produzindo faixas luminosas nas altas latitudes. Em ocasiões de intensa atividade solar, episódios de ejeção de massa coronal e fortes tempestades geomagnéticas podem deslocar a zona auroral para latitudes médias.
Segundo especialistas em clima espacial, há precedentes históricos de auroras observadas em regiões temperadas durante surtos solares excepcionais. O cruzamento entre relatos jornalísticos e a cronologia de eventos solares torna fisicamente plausível que os clarões vistos no Rio em 1875 fossem, de fato, uma aurora austral.
Elementos que sustentam a hipótese
Há pelo menos três pontos de convergência entre os relatos e a explicação científica: 1) simultaneidade de relatos em múltiplos jornais da cidade; 2) descrição de colorações e movimentos compatíveis com auroras; e 3) registros históricos, em literatura especializada, de tempestades solares que podem ter aumentado a extensão latitudinal da aurora.
Limitações da apuração
Apesar da coerência, a identificação não é absoluta. Jornais do século XIX frequentemente mesclam observação e interpretação literária, e termos usados pelos cronistas não coincidem sempre com a terminologia científica moderna.
Não foram encontrados, nas fontes digitais consultadas neste levantamento inicial, registros instrumentais contemporâneos — como observações magnéticas contínuas ou relatórios científicos datados do período — que pudessem confirmar de forma incontestável a natureza geomagnética do evento.
Por isso, a conclusão apresentada é provisória: a documentação de imprensa e a plausibilidade física apontam para uma aurora austral, mas a confirmação absoluta exigiria evidência instrumental adicional.
O que a apuração do Noticioso360 cruzou
Para chegar a essa avaliação, a redação do Noticioso360 privilegiou fontes primárias da hemeroteca digital da Biblioteca Nacional, consultando edições de jornais do período e coletando descrições diretas do público e de cronistas.
Além disso, a equipe confrontou os relatos com estudos científicos e bases institucionais sobre clima espacial, que explicam como erupções solares e ejeções de massa coronal podem provocar auroras em latitudes mais baixas. O procedimento evitou reconstruições não verificadas e optou por apresentar as variantes descritivas encontradas nos periódicos.
Próximos passos recomendados
Para avançar na investigação, recomenda-se busca aprofundada em acervos de observatórios do século XIX no Brasil e no exterior, especialmente coleções que possam conter registros magnéticos ou anotações científicas de observatórios meteorológicos e magnéticos.
Outra frente é a verificação em bases de dados internacionais de atividade solar histórica, para localizar indícios de tempestades geomagnéticas próximas a fevereiro de 1875. Cartas, diários pessoais de cientistas e relatórios de navios também podem trazer evidências complementares.
Implicações históricas e culturais
Se confirmada, a observação de uma aurora austral no litoral sudeste do Brasil reforça a noção de que episódios extremos de atividade solar tiveram impacto visível em regiões bem distantes das zonas polares, afetando a percepção pública e a imprensa do século XIX.
Além disso, o caso ilustra como a história ambiental pode ser reconstruída a partir de fontes jornalísticas quando estas são examinadas criticamente e cruzadas com conhecimento científico atual.
Fontes
- Biblioteca Nacional — 1875-02-17
- NOAA Space Weather Prediction Center — 2021-01-01
- NASA Solar Physics — 2020-06-15
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Analistas e historiadores consultados sugerem que investigações complementares podem trazer dados instrumentais capazes de consolidar a identificação. A descoberta de registros magnéticos ou de observatórios do período seria o próximo passo para transformar uma conclusão plausível em certeza documental.
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