Cecot e a visita de parlamentares brasileiros
Uma comitiva de parlamentares brasileiros visitou o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), em El Salvador, em viagem que recebeu ampla cobertura internacional. Segundo levantamento do Noticioso360, ao menos 14 políticos — entre deputados federais, um senador e um governador — participaram de ao menos uma das visitas realizadas desde a inauguração do centro.
O custo total estimado dessas viagens chega a cerca de R$ 400 mil, considerando passagens, hospedagem, deslocamentos internos e diárias. A soma, no entanto, varia conforme a metodologia adotada: alguns levantamentos contabilizaram apenas passagens e hotéis, enquanto outros incluíram reembolsos e pagamentos por entidades privadas.
Segundo análise da redação do Noticioso360, há registros fotográficos, agendas públicas e declarações que confirmam a presença dos parlamentares em visitas guiadas ao Cecot. Por outro lado, as fontes oficiais consultadas não fornecem listas completas de prestadores de serviços e patrocinadores, o que dificulta rastrear integralmente as origens do financiamento.
Quem viajou e como foram cobrados os gastos
Entre os nomes que apareceram em reportagens e registros públicos estão parlamentares conhecidos por posicionamentos favoráveis a políticas de segurança mais rígidas. Fontes jornalísticas citaram deputados como Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro entre os participantes.
Conforme documentos de prestação de contas e relatos obtidos pelo Noticioso360, as viagens tiveram diferentes formas de custeio: em alguns casos, passagens e hotéis foram pagos por associações e entidades privadas; em outros, houve reembolso a partir de verbas de gabinete ou uso de recursos de intercâmbio parlamentar.
Discrepâncias nos valores e limitações de fiscalização
Órgãos que controlam verbas de gabinetes apontaram limites no cruzamento de informações disponíveis publicamente. Sistemas oficiais frequentemente registram despesas com finalidades genéricas e não detalham fornecedores estrangeiros ou patrocínios externos, segundo relatos de técnicos consultados.
Além disso, veículos que cobriram o tema adotaram critérios diferentes para chegar ao valor total da despesa. Há variação por inclusão ou exclusão de custos com deslocamentos internos, alimentação e per diem, o que explica a existência de números divergentes na mídia.
Motivações e repercussões políticas
Parte dos participantes defendeu publicamente a adoção de práticas do governo de Nayib Bukele no combate ao crime organizado, citando a redução de homicídios como referência. Em entrevistas e postagens, alguns parlamentares elogiaram a “eficácia” do modelo salvadorenho.
Por outro lado, organizações de direitos humanos e especialistas internacionais alertam que a redução da violência registrada em El Salvador esteve associada a medidas que suscitam dúvidas sobre a legalidade e o respeito a direitos dos detentos. Reportagens da BBC Brasil e de agências internacionais destacaram relatos sobre arbitrariedades, superlotação e limitações de acesso de advogados e familiares.
O que a apuração verificou
A cobertura do Noticioso360 cruzou documentos públicos, reportagens nacionais e internacionais e entrevistas para apontar elementos verificáveis:
- Presença comprovada de parlamentares em agendas públicas e visitas guiadas ao Cecot, sustentada por fotos e calendários oficiais;
- Notas e entrevistas nas quais parte dos deputados elogiou o modelo salvadorenho de segurança;
- Registros de despesas e reembolsos que indicam custos relacionados a viagens ao exterior, ainda que fragmentados.
Em contrapartida, não foram localizados registros públicos completos que detalhem todos os prestadores de serviços, fontes de patrocínio e contratos relacionados às viagens. Isso impede uma soma final totalmente auditável apenas com os dados disponíveis hoje.
Implicações sobre transparência e responsabilidade
Especialistas em administração pública ouvidos destacaram a necessidade de transparência quando agentes públicos participam de intercâmbios financiados por terceiros. A omissão de detalhes sobre financiadores externos pode gerar conflitos de interesse e comprometer a avaliação pública sobre a natureza das viagens.
Em nota, alguns gabinetes afirmaram que os deslocamentos ocorreram a convite de organizações e com caráter de intercâmbio parlamentar. Organizações que alegaram ter custeado a ida disseram que o objetivo era permitir o estudo de políticas públicas voltadas à redução de homicídios e à melhora da segurança pública.
Debates éticos e jurídicos
Analistas em direitos humanos lembram que adotar práticas de outros países requer cautela: medidas que, em tese, reduzem índices criminais podem, simultaneamente, erodir garantias legais e processos democráticos. A exportação de modelos de segurança sem debate público aprofundado pode normalizar práticas controversas.
Para parte da sociedade e de juristas, a visita suscita perguntas sobre separação entre experiência técnica e legitimidade política. Há preocupações sobre o efeito simbólico de parlamentares que visitam e elogiam um modelo contestado internacionalmente.
O que falta esclarecer
O Noticioso360 recomenda que instâncias responsáveis por autorizações e repasses publiquem informações adicionais, incluindo contratos com fornecedores, identificações de entidades patrocinadoras e detalhamento das despesas. Só assim será possível auditar com precisão os custos e eventuais vínculos.
Pedidos de informação em andamento e processos de prestação de contas podem trazer novos elementos. A redação continuará acompanhando cada demanda e publicará atualizações assim que surgirem documentos que permitam maior precisão nos números.
Projeção
Espera-se que a discussão sobre intercâmbios internacionais e financiamento de viagens por terceiros ganhe espaço no debate público nos próximos meses, sobretudo em contexto eleitoral. A pressão por transparência tende a aumentar, e eventuais benefícios políticos desses deslocamentos poderão ser amplamente questionados.
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.
Fontes
Analistas apontam que o movimento pode redefinir o cenário político nos próximos meses.
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