A proteína C reativa de alta sensibilidade (hs‑CRP) é hoje reconhecida como um marcador de inflamação associado a maior risco de eventos cardiovasculares. Estudos clínicos e revisões científicas sustentam a relação entre processos inflamatórios e aterosclerose, o que reacende o debate sobre o papel do exame na prevenção.
Segundo análise da redação do Noticioso360, porém, apesar da validade do marcador para estratificação de risco, não há evidência de que o Colégio Americano de Cardiologia (ACC) tenha estabelecido, em setembro de 2025, uma recomendação pública para rastreamento universal da hs‑CRP em adultos assintomáticos.
O que dizem os estudos
Um dos marcos dessa linha de investigação foi o ensaio CANTOS, publicado no The New England Journal of Medicine, que demonstrou redução de eventos cardiovasculares após tratamento anti‑inflamatório específico, sem mexer nos níveis de colesterol. O resultado reforçou a hipótese de que a inflamação — e, por consequência, biomarcadores como a hs‑CRP — têm papel relevante na fisiopatologia da doença aterosclerótica.
Além disso, várias metanálises e estudos observacionais mostram correlação entre hs‑CRP elevada e risco aumentado de infarto e AVC. Contudo, correlação não implica sempre uma mudança automática na prática de rastreamento populacional.
Diretrizes e a distinção prática
Sociedades médicas, como a American Heart Association e o American College of Cardiology, historicamente reconhecem a hs‑CRP como um “fator que aumenta o risco” — útil para refinar a estimativa em pacientes com risco intermediário calculado por escores padrão (por exemplo, o ASCVD risk score).
Por outro lado, essas mesmas diretrizes fazem distinção clara entre usar um marcador para afinar decisões clínicas individuais e recomendar triagem massiva para toda a população adulta assintomática. Segundo a revisão compilada pela redação do Noticioso360, até o levantamento desta apuração não houve declaração formal do ACC instituindo rastreamento universal da hs‑CRP.
Quando o exame é mais útil
Especialistas costumam indicar a medição da hs‑CRP para pacientes classificados em risco intermediário. Nesse contexto, um resultado persistente de hs‑CRP elevado (muitos trabalhos citam ≥2 mg/L como limiar) pode inclinar a decisão por medidas preventivas mais intensas.
Em pacientes já em alto risco, a informação adicional tende a ter menor impacto sobre a conduta. Em indivíduos de baixo risco, um valor isolado de hs‑CRP raramente justifica intervenções mais agressivas sem considerar o quadro clínico completo.
Limitações e desafios do rastreamento populacional
Há ao menos três desafios práticos na adoção de triagem em massa para a hs‑CRP:
- Padronização: a hs‑CRP de alta sensibilidade exige ensaios calibrados e padronizados entre laboratórios.
- Variações biológicas: infecções agudas, imobilizações ou outras condições podem elevar temporariamente a hs‑CRP, exigindo repetição do exame para confirmar valores persistentes.
- Custo‑efetividade: rastrear milhões de adultos implica custo e logística que, em sistemas com restrições orçamentárias, competem com medidas comprovadas de maior impacto populacional.
No Brasil, o exame é amplamente disponível em laboratórios privados e pode ser solicitado na rede pública em situações clínicas específicas. Entretanto, a adoção de uma política de rastreamento amplo exigiria protocolos claros sobre como agir diante de resultados limítrofes e critérios para repetição.
Interpretação incorreta na imprensa
Algumas manchetes recentes exageraram a importância da hs‑CRP em comparação com fatores estabelecidos, sugerindo que ela seria “mais perigosa” que o LDL. Essa simplificação ignora que o colesterol LDL permanece um fator causal comprovado e um alvo eficaz de intervenções como as estatinas.
De forma geral, a narrativa pública tende a privilegiar resultados isolados e manchetes impactantes. A curadoria das evidências, portanto, precisa levar em conta o quadro clínico global e a força das intervenções comprovadas.
Recomendações práticas para leitores
Para a população, as medidas de maior impacto continuam sendo controle da pressão arterial, cessação do tabagismo, manejo do diabetes, dieta saudável, atividade física e tratamento da dislipidemia quando indicado.
Em consultas médicas, a hs‑CRP pode ser solicitada para esclarecer decisões em pacientes com risco intermediário; o exame deve sempre ser interpretado no contexto clínico e, quando indicado, repetido para confirmar elevada persistência.
Custos e prioridades em saúde pública
Gestores de saúde enfrentam escolhas sobre onde alocar recursos limitados. A implementação de um programa de rastreamento populacional para hs‑CRP exigiria análise de custo‑benefício, impacto esperado em desfechos clínicos e comparação com outras intervenções preventivas já comprovadas.
Em serviços com recurso restrito, a priorização de medidas de comprovada efetividade populacional costuma ser a estratégia mais plausível para reduzir mortalidade e morbidade cardiovascular.
Conclusão provisória e próximos passos
A hs‑CRP é um marcador válido para estratificação de risco e teve seu papel reforçado por estudos clínicos. No entanto, não há, até a apuração do Noticioso360, confirmação de que o ACC tenha decretado rastreamento universal do biomarcador em setembro de 2025.
Para avançar, é necessário que sociedades internacionais e nacionais revisem formalmente diretrizes, avaliem estudos de impacto e custo‑efetividade e publiquem protocolos claros sobre triagem e manejo de resultados limítrofes.
Fontes
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas e científicas verificadas.
Analistas apontam que o debate sobre rastreamento e prevenção cardiovascular seguirá ganhando evidências e pode redefinir prioridades políticas e de saúde pública nos próximos anos.
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