Diplomacia brasileira diante das agressões dos EUA
Como ataque de Trump à Venezuela coloca diplomacia de Lula ‘em apuros’ (e o que governo brasileiro pode fazer). O inédito ataque dos Estados Unidos à Venezuela e as ameaças do presidente Donald Trump contra Cuba, México e Colômbia evidenciaram a fragilidade da América Latina diante da maior potência mundial. Para analistas de política internacional ouvidos pela reportagem, a situação é preocupante para o Brasil, mas o país está melhor posicionado que outras nações da região frente à nova ofensiva trumpista, seja por sua maior força econômica ou pelo prestígio internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No entanto, os especialistas entrevistados notam que as “armas clássicas” da diplomacia brasileira, ou seja, a capacidade de manter boas relações com diferentes países e atuar com bom trânsito em organismos multilaterais, estão enfraquecidas no novo contexto global, onde nações fortes como os EUA simplesmente impõem suas vontades à força. Mesmo assim, eles veem pouco a fazer além de continuar apostando no diálogo com múltiplos países e na defesa das regras do direito internacional de não agressão e respeito à soberania das nações. Para os entrevistados, o Brasil deve continuar fortalecendo laços com outras potências como China e Rússia, mas com o cuidado de manter uma boa relação com os EUA, sem melindrar a gestão de Donald Trump.
Nota conjunta e relações bilaterais
No início da semana, o Brasil publicou uma nota conjunta com México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha condenando o ataque. Dentro do governo brasileiro, a iniciativa foi considerada importante como forma de não normalizar o ocorrido na Venezuela. Embora o Brasil aposte na articulação internacional, interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acreditam que o principal freio para a agressiva política externa americana pode vir de dentro dos EUA, caso aumente o desgaste doméstico de Trump. Nesse sentido, as eleições legislativas de novembro, nas quais a maior parte das vagas do Congresso dos EUA estará em disputa, são consideradas cruciais para as ações futuras do presidente americano.
Enquanto a diplomacia brasileira continua se pautando pelo pragmatismo, marca histórica do Itamaraty e de Lula, o governo mantém o interesse em um novo encontro presencial entre Lula e Trump neste ano, embora ainda não haja data prevista. Interlocutores do presidente consideram que o contato direto com o presidente americano, um líder centralizador, é fundamental para manter uma boa relação entre os dois países.
Limites da diplomacia brasileira
A captura de Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos no dia 3 de janeiro em uma operação em Caracas abriu um novo capítulo na crise venezuelana e expôs os limites da diplomacia brasileira no cenário internacional. Embora o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha sinalizado disposição para acompanhar os desdobramentos e defender uma solução baseada no direito internacional, especialistas avaliam que o Brasil não possui credibilidade, neutralidade nem peso político para atuar como mediador ou articulador de uma transição na Venezuela.
Analistas apontam que a posição brasileira é resultado de décadas de uma política externa ambígua, marcada por omissões, alinhamentos ideológicos e tentativas frustradas de protagonismo internacional, que agora cobram seu preço em um dos episódios mais sensíveis da geopolítica regional. Questionado se esse histórico pode levar os Estados Unidos a ignorarem definitivamente o Brasil como interlocutor no caso venezuelano, Luiz Augusto Módolo é direto: “melhor ignorarem mesmo”. Para ele, Washington sabe que o chavismo e o governo de Maduro cresceram “sob as barbas” do Brasil e que a diplomacia brasileira ajudou a alimentar o problema que agora exige uma intervenção externa.
Procurados, a Presidência da República e o Itamaraty afirmaram que a “posição do Brasil em relação à operação militar levada a cabo no último dia 3 de janeiro foi expressa com clareza em diversas ocasiões” e reforçaram suas notas protocolares. Nelas, o governo afirma que os “ataques militares em solo venezuelano” e a captura do “chefe de Estado” são classificados como “violações graves da soberania e do direito internacional”.
Percepção da política externa brasileira
A nova operação americana foi planejada e executada sem considerar o Brasil como parceiro estratégico, refletindo uma perda de relevância regional que contrasta com o discurso oficial de protagonismo sul-americano. Observadores apontam que a captura de Maduro não apenas redefine o cenário político da Venezuela, mas também expõe fragilidades profundas da política externa brasileira sob Lula. “Sem neutralidade reconhecida, sem liderança regional efetiva e com um histórico de alinhamento a regimes autoritários, o país corre o risco de permanecer à margem das decisões estratégicas que moldarão o futuro da América Latina no pós-chavismo”, alerta Módolo.
Na avaliação de André Marsiglia, a ideia de que o Brasil possa assumir um papel central de mediação após a queda de Maduro não encontra respaldo na realidade internacional, uma vez que nem Lula nem o Estado brasileiro detêm o status necessário para serem levados a sério por Donald Trump. Para ele, o movimento do presidente Lula não é guiado por uma estratégia diplomática realista, mas por um cálculo político interno. “Ao se colocar como mediador, mesmo sem chance de sucesso, Lula tenta vestir uma falsa neutralidade. Isso é uma construção narrativa para o seu eleitorado”, afirma.
Assim, o governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores, reafirma a condenação aos ataques militares realizados em território venezuelano e à captura de Maduro, classificando os atos como graves violações da soberania nacional e dos princípios fundamentais do direito internacional. O Itamaraty ainda faz um apelo para que as Nações Unidas e demais organismos multilaterais atuem de forma ativa na desescalada das tensões e na preservação da América Latina e do Caribe como zona de paz.
Fontes
Veja mais
- Reportagem diz que Pietro Parolin articulou possível saída de Nicolás Maduro rumo à Rússia; há ausência de confirmação oficial.
- Noticioso360 apurou relatos de detenção do ator Can Yaman durante uma operação policial noturna na Turquia.
- Ator afirma ter recebido uma garrafa de azeite após comprar um vídeo-game em marketplace.
Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas



