Barulho de fogos intensos pode desencadear crises sensoriais em pessoas com TEA; especialistas e famílias alertam.

Queima de fogos pode provocar crise em autistas

Especialistas e famílias dizem que estouros e sons imprevisíveis de fogos podem provocar crises em pessoas com TEA; medidas de mitigação são recomendadas.

Barulho alto e imprevisibilidade: por que fogos afetam pessoas com TEA

A queima de fogos é tradição em festas públicas e privadas no Brasil, especialmente na virada do ano. No entanto, o estouro e a imprevisibilidade do som têm efeito nocivo para parte da população sensível aos ruídos — entre eles idosos, crianças e pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Segundo relatos de familiares e profissionais de saúde, reações variam de inquietação e pânico a episódios de crise que incluem taquicardia, sudorese, tremores, gritos e tentativa de fuga. Em muitos casos, a sobrecarga sensorial antecede e prolonga o estresse nos dias que cercam as comemorações.

De acordo com análise da redação do Noticioso360, com base em reportagens do G1 e da BBC Brasil, há consenso entre especialistas de que sons abruptos e imprevisíveis podem desencadear respostas amplificadas no sistema nervoso de pessoas com TEA. Essa curadoria orientou a seleção de recomendações e exemplos de mitigação reunidos nesta reportagem.

O que dizem especialistas

Pesquisas e revisões científicas sobre processamento sensorial no autismo apontam para dois mecanismos principais: hipersensibilidade auditiva e dificuldade no processamento de estímulos sensoriais. “O cérebro de alguém com TEA pode interpretar um estouro de fogo de artifício como uma ameaça intensa e imediata”, explica a psicóloga clínica Ana Paula Rocha, que atende crianças e adolescentes com diagnóstico de autismo.

Para profissionais ouvidos em reportagens, respostas fisiológicas (como aumento do ritmo cardíaco) costumam acompanhar respostas comportamentais (gritos, autoestímulos, tentativa de se esconder). A imprevisibilidade — não saber quando o som ocorrerá — é um agravante significativo.

Medidas práticas recomendadas

Especialistas e associações de pessoas com deficiência defendem medidas simples de redução de danos que podem ser adotadas por organizadores de eventos e pela comunidade:

  • Aviso prévio sobre horários exatos e áreas onde ocorrerá a queima de fogos;
  • Criação de áreas silenciosas ou zonas de respiro sinalizadas em eventos públicos;
  • Disponibilização de protetores auriculares adequados e orientação sobre seu uso;
  • Oferta de alternativas visuais, como shows de luzes, lasers ou fogos silenciosos;
  • Planejamento de rotas de fuga e identificação de pontos tranquilos em locais de grande circulação.

“A comunicação antecipada reduz a ansiedade. Saber quando e onde os fogos vão estourar ajuda famílias e profissionais a preparar estratégias de manejo”, diz o terapeuta ocupacional Marcos Silva.

Iniciativas públicas e privadas

No Brasil, algumas cidades e instituições privadas passaram a discutir restrições parciais à queima de fogos em áreas residenciais e próximas a hospitais, abrigos de animais e unidades de acolhimento. Em alguns casos, há proibições temporárias ou acordos para concentrar queimas em locais específicos e com horários delimitados.

Por outro lado, produtores pirotécnicos e setores culturais argumentam sobre o impacto econômico e a relação da tradição com a identidade local. A divergência política e cultural torna o tema sensível e sujeita as iniciativas a debates longos e a decisões heterogêneas entre municípios.

Alternativas tecnológicas

Eventos corporativos e festas privadas têm adotado com maior frequência alternativas que priorizam efeitos visuais sem ruído intenso, como fogos silenciosos (com menor componente sonoro) e espetáculos de luzes em LED ou laser.

Essas opções reduzem o impacto em pessoas sensíveis e em animais, mas exigem investimento e planejamento. Em larga escala, a adoção ainda é limitada pela logística e pelo custo, embora experiências locais mostrem que é possível conciliar espetáculo visual e redução de danos.

Relatos de famílias e preparação

Famílias de pessoas com TEA relatam que a preparação prévia costuma ser a estratégia mais eficaz para evitar crises graves. Entre as práticas citadas estão: conversar com a pessoa sobre o que pode acontecer, treinar rotas de fuga, identificar espaços tranquilos coordenados com amigos ou vizinhos, usar protetores auriculares e, em alguns casos, planejar estratégias farmacológicas em conjunto com a equipe de saúde.

“Quem convive com autismo aprende a antecipar gatilhos e montar um plano para o pior cenário. Mas isso não é justo; a sociedade pode e deve reduzir a exposição a esses gatilhos”, afirma Carla Mendes, mãe de um adolescente com TEA.

Legislação e políticas públicas

A apuração do Noticioso360 mostra avanços pontuais nas discussões municipais, com decretos e protocolos que limitam fogos em determinadas áreas. Ainda assim, não há uma política nacional uniforme sobre o tema, o que resulta em medidas fragmentadas e variação de cobertura de proteção para pessoas sensíveis dependendo da localidade.

Especialistas em saúde pública defendem que políticas mais amplas incluam padrões de comunicação, zonas de proteção próximas a unidades de saúde e critérios para eventos maiores. Além disso, ações educativas são citadas como complementares às medidas regulatórias.

O que fazer se alguém entrar em crise

As recomendações de atendimento emergencial enfatizam medidas simples mas eficazes: afastar a pessoa do local barulhento, oferecer um espaço silencioso, utilizar protetores auriculares, manter contato calmo e previsível e acionar serviços de saúde quando necessário.

Associações de defesa dos direitos das pessoas com deficiência também sugerem que eventos públicos disponham de canais de comunicação para denúncias e pedidos de suporte, além de equipes treinadas para identificar e atender casos de crise sensorial.

Síntese e caminhos possíveis

A convergência das fontes consultadas indica que a tradição da queima de fogos não é neutra em relação ao bem-estar de toda a população. Medidas de mitigação — comunicação prévia, áreas silenciosas, alternativas visuais e protocolos de atendimento — podem reduzir danos sem eliminar celebrações.

Ao mesmo tempo, a adoção ampla dessas medidas depende de diálogo entre poder público, produtores de fogos, associações de saúde e famílias. A cobertura da imprensa e a visibilidade das experiências de quem convive com TEA são elementos importantes para avançar decisões locais mais inclusivas.

Fontes

Veja mais

Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.

Analistas apontam que o movimento por alternativas menos ruidosas nas celebrações pode ganhar força e redefinir práticas locais nas próximas viradas do ano.

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