Resumo rápido
A relação entre terapia de reposição hormonal (TRH) e câncer de mama não é absoluta: ela varia conforme o tipo de hormônio, a via de administração, a duração do uso e o perfil da paciente.
Segundo análise da redação do Noticioso360, com base em dados da Reuters e da BBC Brasil e em estudos científicos, a associação mais consistente observada é entre a terapia combinada (estrogênio + progestagênio) — sobretudo quando usada por mais de cinco anos — e o aumento da incidência de câncer de mama.
O que a ciência mostra
O principal marco é o Women’s Health Initiative (WHI), um grande estudo clínico randomizado iniciado nos Estados Unidos no final dos anos 1990. O braço que avaliou a combinação de estrogênio com progestagênio mostrou aumento na incidência de câncer de mama, gerando mudanças nas recomendações clínicas no início dos anos 2000.
Por outro lado, o braço do WHI que avaliou estrogênio isolado, aplicado em mulheres que já haviam passado por histerectomia, trouxe resultados distintos: evidência menos consistente de risco aumentado e até sinais de redução em algumas análises.
Metanálises e revisões
Revisões sistemáticas e metanálises posteriores confirmam que o risco é heterogêneo. Fatores que alteram a magnitude do risco absoluto incluem:
- Tipo de hormônio: combinação estrogênio–progestagênio tende a ter associação mais clara com aumento do risco.
- Duração do uso: risco cresce com o tempo de exposição, especialmente após mais de cinco anos.
- Via de administração: oral e transdérmica podem apresentar perfis distintos em termos metabólicos e de risco.
- Idade de início e tempo desde a menopausa: uso iniciado mais tardiamente parece implicar maior preocupação.
Tipos de TRH e diferenças práticas
Nem todos os progestagênios são iguais. Estudos apontam que diferentes moléculas e regimes (contínuo versus cíclico) podem ter efeitos distintos sobre tecido mamário.
Além disso, a via transdérmica (adesivos ou géis) tem sido discutida por reduzir alguns efeitos metabólicos da TRH oral, o que pode influenciar riscos a longo prazo. Ainda assim, evidências definitivas sobre redução de risco relativo entre vias não são uniformes.
Quem tem mais risco?
O risco absoluto depende do risco basal da mulher. Mulheres com histórico familiar relevante, alterações genéticas (por exemplo, BRCA) ou exame clínico e imagens sugestivas exigem abordagem mais cautelosa.
Por outro lado, mulheres jovens com menopausa precoce podem receber benefícios claros da TRH, incluindo redução de sintomas vasomotores e proteção óssea, com impacto potencialmente favorável sobre qualidade de vida e saúde a médio prazo.
Benefícios versus riscos
Especialistas e sociedades médicas continuam a considerar a TRH a opção mais eficaz para sintomas intensos da menopausa, como ondas de calor e sudorese noturna. A decisão deve equilibrar benefícios (alívio de sintomas, proteção óssea) e riscos (câncer de mama, trombose, efeitos cardiovasculares).
Recomenda-se adotar a menor dose eficaz pelo menor tempo necessário, além de reavaliações periódicas. A prática clínica contemporânea privilegia a individualização: considerar idade, intensidade dos sintomas, história pessoal e familiar e preferência da paciente.
Recomendações práticas para pacientes
- Avaliação prévia do risco individual: história familiar, biópsias prévias e exame clínico.
- Discussão informada entre paciente e médico, registrando o plano terapêutico.
- Escolha da menor dose eficaz e definição de metas e prazos para reavaliação.
- Manutenção do rastreamento oncológico conforme diretrizes (mamografia regular).
- Considerar alternativas não-hormonais quando o risco residual for inaceitável.
Comunicação e imprensa
Em contraste com manchetes simplificadoras, a cobertura precisa refletir nuances: dizer que “a reposição hormonal causa câncer de mama” é impreciso. A forma correta é afirmar que certos regimes, principalmente a combinação estrogênio–progestagênio e o uso prolongado, estão associados a aumento do risco.
A Reuters, em reportagens sobre revisão de evidências, resumiu que “a terapia combinada aumenta o risco de câncer de mama”, enquanto a BBC Brasil destacou diferenças entre tipos de tratamento e enfatizou orientações de sociedades médicas sobre individualização e vigilância.
O que fazer se você usa TRH
Se você faz ou considera TRH, agende acompanhamento com seu médico. Leve histórico familiar, resultados de exames e uma lista de sintomas. Pergunte sobre alternativas e sobre como será feita a reavaliação do tratamento.
Para mulheres que optam pela TRH, a recomendação é monitorização regular e atenção a mudanças no tecido mamário. Em caso de histórico de alto risco, protocolos não hormonais ou estratégias preventivas podem ser preferidas.
Perspectiva futura
Pesquisas continuam a refinar o entendimento das diferenças entre progestagênios, vias de administração e esquemas de dosagem. Espera-se que estudos observacionais de longo prazo e análises moleculares ajudem a identificar quais subgrupos de pacientes se beneficiam mais ou apresentam maior risco.
Analistas apontam que avanços em medicina personalizada e melhor caracterização do risco terão impacto direto nas recomendações clínicas nos próximos anos, permitindo decisões cada vez mais alinhadas à segurança e qualidade de vida de cada paciente.



