Termo misógino foi reapropriado como afirmação estética e ganhou espaço na moda, música e na TV.

Como a comunidade LGBTQIA+ ressignificou 'cunt'

Após reapropriação cultural, 'cunt' passou de ofensa misógina a marca estética na cultura queer e em novelas brasileiras.

Uma palavra que deixou o insulto e virou expressão estética

Em uma cena recente da novela Três Graças, o personagem Bagdá — interpretado por Xamã — ostenta um guarda-roupa onde referências visuais e gírias que aludem ao termo cunt aparecem como afirmação identitária.

A aparição em uma trama de grande alcance é sintomática de um movimento maior: palavras antes usadas como insulto vêm sendo reapropriadas por setores da comunidade LGBTQIA+ como estratégia estética e política.

Contexto e apuração

Historicamente, cunt é um termo inglês com forte carga misógina e sexual. Nas últimas décadas, ativistas, artistas e agentes culturais passaram a ressignificar expressões pejorativas, transformando-as em sinais de pertencimento e resistência.

De acordo com análise da redação do Noticioso360, que cruzou reportagens da Folha de S.Paulo e da BBC Brasil, a adoção do termo como marca estética segue padrões observados internacionalmente: primeiro em nichos queer e redes artísticas, depois migrando para a moda, música e a mídia de massa.

Do insulto à linguagem estética

Na prática, a reapropriação se manifesta em camisetas, acessórios, performances e gírias. Designers independentes e marcas alternativas passaram a estampar palavras provocativas em peças que circulam em festas, desfiles e plataformas digitais.

Artistas assumem o uso como uma forma deliberada de chocar e de forjar uma linguagem própria. “É um modo de tirar poder da palavra ofensiva”, afirma um estilista queer ouvido pela apuração. Para muitos, a estratégia tem efeito duplo: confronta normas sexistas e cria códigos de reconhecimento entre pessoas LGBT+

A televisão como vetor de popularização

Quando termos ou imagens chegam à televisão, seu alcance se amplia. A presença do personagem Bagdá em uma novela de grande audiência funciona como catalisador: tendências que circulavam em nichos ganham exposição nacional.

No entanto, a inserção em roteiros e figurinos não equivale automaticamente a endosso político. Há debates internos na comunidade sobre limites, comercialização e o risco de esvaziamento simbólico.

Perspectivas e pontos de tensão

Uma das tensões levantadas pelo fenômeno é a relação entre estética e mercado. Reportagens da Folha de S.Paulo destacam como lojas, grifes e celebridades incorporam termos e imagens para efeito estético — muitas vezes sem diálogo com as comunidades de origem.

Por outro lado, a cobertura da BBC Brasil enfatiza o caráter identitário da reapropriação: para ativistas, ressignificar insultos é uma técnica de visibilidade e resistência frente ao preconceito. As duas leituras não são mutuamente exclusivas; convivem e se entrecruzam.

Falta de dados quantificáveis

Não há, até o momento, levantamentos oficiais ou estatísticas que mensurem a extensão do uso do termo no Brasil. Nossa conclusão baseia-se em observação de tendências, entrevistas com artistas e curadores, e cruzamento de reportagens jornalísticas.

Isso implica limites: não podemos afirmar com precisão a dimensão populacional do fenômeno, apenas mapear sua presença em circuitos culturais e na mídia.

Vozes e reações

Entre integrantes da própria comunidade LGBTQIA+, há opiniões diversas. Alguns celebram a reapropriação como estratégia libertadora; outros alertam para os riscos de apropriação comercial e dessensibilização.

Especialistas ouvidos pela apuração também pontuam que o contexto importa: a mesma palavra pode assumir sentidos distintos quando usada por pessoas de dentro do grupo ou por figuras públicas/empresas que exploram a estética sem compromisso político.

Citações e exemplos

Um curador cultural afirmou, em entrevista: “Transformar o insulto numa bandeira estética é um movimento de reinvenção identitária, mas precisa caminhar com práticas que preservem sua origem política”.

Em festivais e plataformas digitais, é possível ver artistas que explicitam a ligação entre a palavra e agendas feministas e queer, enquanto consumidores em lojas de massa veem a expressão como mero elemento de moda.

O papel da mídia e das produções culturais

Produções televisivas e music videos são particularmente eficazes em difundir vocabulário e estilo. A televisão, ao replicar imagens e falas para milhões, colabora para que termos antes confinados a nichos ganhem lugar no debate público.

Ao mesmo tempo, a medialização amplia o escrutínio: jornalistas, acadêmicos e público passam a discutir se a reapropriação promove emancipação ou mercantiliza lutas.

Conclusão e projeção

A transformação de cunt de insulto misógino a elemento de afirmação coletiva segue um padrão já observado em outros contextos: inicia-se em circuitos culturais e ativistas e alcança a moda e a mídia de massa.

Analistas ouvidos pela redação apontam que a presença do termo em novelas e no mercado pode intensificar debates sobre significado, comercialização e limites éticos. A tendência é de maior visibilidade, mas também de polarização sobre seu uso.

Nos próximos meses, é provável que a disputa entre dimensão estética e política se acentue, com novas peças, campanhas e representações alimentando o debate público.

Fontes

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Conteúdo verificado e editado pela Redação do Noticioso360, com base em fontes jornalísticas verificadas.

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