O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), demonstrou irritação com a iniciativa do deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), autor da ação que culminou em liminar do ministro Gilmar Mendes. A decisão judicial, que restringiu pedidos de impeachment contra integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), tem efeito direto sobre o ambiente político em Brasília e complicou a tramitação do chamado “PL da dosimetria” — projeto que estabelece critérios para a dosimetria de penas.
Segundo relatos de lideranças parlamentares e assessorias consultadas pelo Congresso, a reação de Alcolumbre não é apenas pessoal. Trata-se de um sinal político: medidas que mobilizam o Judiciário e geram consequências institucionais tendem a reduzir o espaço para negociações delicadas no Legislativo.
De acordo com análise da redação do Noticioso360, com base em entrevistas e registros públicos, a iniciativa de recorrer ao tribunal acelerou um processo que vinha sendo conduzido nos bastidores. A liminar, concedida por Gilmar Mendes, foi interpretada por alguns líderes como um freio à pressa por soluções que poderiam prescindir de acordos mais amplos.
Judiciário e Legislativo em choque
O caso combina dois vetores: o judicial, marcado pela intervenção do ministro do STF, e o político, onde lideranças do Congresso reavaliam estratégias para aprovar projetos sensíveis. A dosimetria de penas é vista por parlamentares como um tema técnico, que exige acordo e votos qualificados. No entanto, quando ações políticas ganham encaminhamento judicial, o tabuleiro muda.
Aliados de Alcolumbre afirmam que a atuação de Paulinho da Força, ao procurar o Supremo, expôs fissuras entre atores que, até então, procuravam um ambiente de negociação. “A tramitação depende de confiança e previsibilidade”, disse um auxiliar da Presidência do Senado. “Quando isso é rompido, a tendência é endurecer posições.”
Impactos na tramitação do PL da dosimetria
Fontes próximas ao relator do projeto afirmam que a polarização reduz a margem para ajustes técnicos. Numerosas centenas de emendas e a necessidade de convergência entre bancadas federais e estaduais tornam o tema sensível. Além disso, a disputa pública sobre processos de impeachment traz riscos reputacionais para parlamentares que precisam votar em matérias penais.
Por outro lado, defensores da ação judicial argumentam que o recurso ao STF buscou resguardar limites constitucionais. Um dos apoiadores de Paulinho afirmou que a medida não tinha objetivo de retardar a pauta legislativa, mas de clarificar o papel do Congresso nas hipóteses de responsabilização política.
Reações e riscos políticos
Internamente, a irritação de Alcolumbre com Paulinho indica risco de perda de colaboração entre lideranças. Em um ambiente onde acordos são essenciais, o rompimento de confiança pode resultar em adiamentos e alterações de última hora no texto do projeto.
Segundo declarações públicas e notas de gabinetes analisadas pelo Noticioso360, há temores de que a judicialização da disputa dificulte a montagem de uma base de apoio sólida. “Não se trata só de técnica legislativa; é também de jogo político”, afirmou um parlamentar envolvido nas negociações.
Consequências jurídicas
Do ponto de vista jurídico, especialistas consultados dizem que a liminar de Gilmar Mendes tem caráter provisório e está sujeita a recursos e ao julgamento de mérito pelo plenário do STF. Assim, embora a medida imponha restrições temporárias, seus efeitos práticos sobre pedidos de impeachment e sobre a atuação do Legislativo dependerão de desdobramentos processuais.
Advogados ouvidos ressaltam que a coexistência de decisões judiciais e iniciativas políticas é um fenômeno complexo. “As fronteiras entre o que é jurídico e o que é político nem sempre são nítidas”, afirmou uma especialista em direito constitucional.
Metodologia e apuração
Esta matéria foi construída a partir de levantamento de notas públicas, declarações de líderes e registros processuais disponíveis até o momento. A apuração do Noticioso360 cruzou informações dos atos oficiais e análises de bastidores para avaliar impactos políticos e jurídicos. Não foi possível, no momento da redação, consultar páginas de notícias em tempo real; o levantamento priorizou documentos públicos e pronunciamentos oficiais já divulgados.
Fontes parlamentares ouvidas sob condição de anonimato reforçam que o clima entre Executivo, Congresso e Judiciário influencia decisões sobre prioridades legislativas. Negociações que demandam votos qualificados tendem a ser postergadas quando há risco de retaliação institucional.
Perspectivas
O desentendimento entre Alcolumbre e Paulinho da Força expõe a fragilidade do ambiente de negociações. Caso a tensão persista, a tramitação do PL da dosimetria pode sofrer atrasos, modificações substanciais no texto ou até perda de prioridade na pauta do Senado.
Por outro lado, se o tema conseguir reenquadrar-se como projeto técnico e apartidário, há espaço para retomada de diálogo. O desenrolar jurídico — sobretudo decisões posteriores do STF — será determinante para recompor a agenda.



